Envelhecimento da população está mudando perfil familiar
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de julho de 2000
Lourdes Sola Agência Estado 
Aumentou o número de meninas de 10 a 19 anos que ficam grávidas. Aumentou também a expectativa de vida dos adultos, em torno de 75 anos. E está aumentando o número de crianças criadas na companhia dos avós, aos quais é dedicada a data de hoje. No Brasil, estima-se que 1 milhão delas viva esta rotina; nos Estados Unidos, o número já chega a 3,4 milhões, país em que 75% dos idosos são avós. Não se trata de cuidar dos netos enquanto os pais vão trabalhar ou dar uma saída à noite. Muitos deles estão morando na casa dos avós, com suas mães. Para que os filhos não interrompam seus estudos ou até mesmo a carreira profissional, assumem os netos, normalmente numa fase de vida em que estão deixando de ter algumas tarefas domésticas como buscar e levar filhos a cursos e festas, por exemplo. Mas a alegria de ver o neto e a filha bem vale a pena para eles.
O bem-estar da filha Bianca, de 17 anos, e da neta Beatriz, de 7 meses, fez com que Christine, de 48 anos, e Walter Stort Júnior, de 50, mudassem a rotina familiar não só deles, mas também dos outros dois filhos, Bárbara, de 23 anos, e Bruno, de 20. É que agora Bianca mora com o namorado, José Ernesto, na casa deles. Essa foi a solução encontrada por eles para que os jovens pais assumam a responsabilidade de cuidar da filha juntos. Walter conta que teve sorte de receber a notícia da gravidez de Bianca ao chegar de uma viagem, ainda no aeroporto. Ele confessa que não é a melhor notícia do mundo, mas também não é a pior.
Estava um trânsito horrível e tive uma hora e meia para pensar no assunto e tentar tomar a melhor decisão até chegar em casa, lembra-se. A primeira coisa que fez foi abraçar a filha e dizer que estava tudo bem.
Christine e Walter são bem-humorados e estão superfelizes com a neta em casa, mas não querem interferir na educação dela e muito menos assumir as tarefas que fazem parte da vida de um bebê. Bianca e José Ernesto cuidam das mamadeiras e trocas de fraldas, por exemplo. Eles terão de passar valores deles para a filha, diz Christine. A avó confessa que não é fácil ficar sem dar palpites, mas resiste.
A participação dos avós é primordial, observa o psiquiatra Haim Grunspum. Na opinião dele, adolescente e criança estão assistidos dessa forma. Assistência foi o que mais Maria do Carmo Vieira, de 52 anos, teve de dar à filha Luciana, de 19 anos, quando nasceu Bárbara, de 4 anos. Ela estava com 14 anos e eu cuidava das duas porque ela chorava tanto quanto a nenê, recorda-se. Bárbara tem outros dois irmãos, mas não quer viver com os pais. Gosto de morar com minha avó, diz. Maria do Carmo acha ótimo. Mas durante a tarde, horário em que a neta está na escola, aproveita o tempo para ela e até faz planos para o futuro. Ainda quero retomar o estudo de piano, porque sempre gostei de cantar, conta. Por enquanto, ela ensina o que aprendeu à neta. Os garotos ainda são mais omissos quando surge uma gravidez assim, diz Grunspum.
Camila Mendes (os nomes da família são fictícios), de 18 anos, foi vítima dessa omissão. O namorado não quis assumir o filho e ela teve total apoio da família. A avó Marta, de 54 anos, adora curtir o neto, Marcelo, mas deixa a educação a cargo da filha. Existe uma diferença grande entre a minha geração e a dele. Sou só avó, explica. Isso não significa que ela não faça umas ginásticas para ajudar a filha.
Algumas vezes, Camila levava Marcelo até a empresa em que seu irmão trabalha para que ele, que estuda na USP, entregasse o bebê à avó, socióloga que está terminando um curso de pós-graduação naquela universidade. Era uma prova de revezamento. Foi o jeito de ninguém perder aula e cuidar do bebê, conta Marta, que planejava viajar sozinha com o marido, Roberto, no fim do ano. Ela ainda vai à Europa, mas levará a filha e o neto para apresentá-lo aos parentes de lá.


