Entrevista com Bill Gates
Washington, 10 (AE-NEWSWEEK) - No fim de uma semana movimentada, o presidente da Microsoft, Bill Gates, falou ao jornalista Steven Levy, da Newsweek, sobre o futuro. Newsweek - Qual é a sua reação à decisão do juiz? Bill Gates - Bem, não houve surpresa. A idéia dele de que não deveríamos ter embutido o apoio Internet no Windows e de que o governo deveria usar seus recursos para ajudar a Netscape, tudo isso ficou claro há quatro meses. Newsweek - O senhor sente que fez tudo o que podia para chegar a um acordo? Gates - Creia-me, nas últimas quatro semanas não passei sequer uma noite em casa. E isso principalmente em virtude das discussões mantidas tarde da noite, por telefone, sobretudo com o mediador. Passei todos os fins de semana trabalhado em torno dessa questão, e todos os dias, até ser informado de que, por causa do que o mediador ouviu dos Estados, todas a nossas boas idéias não passaram de uma discussão simulada. Newsweek - O senhor esteve há pouco em Washington, D.C., falando com congressistas. Tem alguma esperança de que o Congresso, ou uma nova administração, possa dar-lhe algum alívio? Gates - Não. O processo tem de seguir um curso judicial. A Corte de Apelações conhece jurisprudência, neste país. Ela poderá ver em que ponto isso saiu dos trilhos e de fazer o que é certo. Newsweek - Parece que, com o ritmo acelerado, há menos probabilidades de que a solução de dividir a empresa seja colocada em discussão... Já pensou, alguma vez que isso poderia acontecer? Gates - O simples fato de ter sido insinuado... que um dos querelantes sugeriu a idéia, é ultrajante. Newsweek - Será difícil prosseguir com as atividades normais durante o longo processo de apelação? Gates - Uma das coisas boas, na nossa cultura, é que sempre operamos sabendo que os projetos nos quais trabalhamos são a chave para o sucesso e a sobrevivência da companhia. O fato de estarmos sendo processados só contribui para nos unir muito mais. O último grande marco, para a Microsoft, foi 1995, quando lançamos o Windows 95, e aquela primeira fase da Internet estava apenas começando. Agora, com o lançamento do Windows 2000, temos uma situação totalmente análoga. Hoje estamos definindo o trabalho que deveremos fazer nos termos dos Serviços Windows da Próxima Geração. Newsweek - Por que essa iniciativa é tão importante? Gates - Agora a Internet se dedica principalmente a seguir os links e ler as páginas. O usuário vê uma grande tela de informações. Nós percorreremos o caminho que nos levará à segunda fase da Internet, na qual será possível fazer transações comerciais em abundância, e a criatividade ainda fará parte desse cenário. Newsweek - A AOL acaba de colocar no mercado uma nova versão do paginador Netscape, e, ao que parece, também entrará no setor de serviços. Gates - A AOL é uma concorrente obstinada, temos de reconhecer. A principal superposição, no seu caso, é com os usuários individuais (em contraposição aos clientes comerciais). Eles querem atrair todos os nossos clientes, mas, quando se trata de trabalhadores que conhecem bem o assunto, e das grandes coisas que eles fazem, eu lhe diria que só uma companhia de softwares muito inovadora poderá ampliar as fronteiras daquela atividade. Newsweek - O senhor sempre age com base na premissa de que a Microsoft está em uma situação muito competitiva. Mas o seu jogo é duplo: no tribunal e no contexto dessa nova iniciativa. Considera essa uma época particularmente arriscada para a Microsoft? Gates - Não. Escolha um ano, qualquer um, de nossa história, e eu lhe direi quais eram os riscos que corríamos na época, na tentativa de levar adiante as fronteiras dos softwares. Sim, este é um ano de alto risco, e estou satisfeito em ver que isso é reconhecido. Mas o tipo de coisas que fazemos, ao tentar empurrar as fronteiras para mais longe e continuar a ser líderes
isso sempre será arriscado. E quando (uma empresa) tem concorrentes dispostos a usar o sistema legal para atacá-la, enfrenta no mínimo dois tipos de ataques: as tentativas deles de usar verbas do governo e o sistema legal para prejudicá-la, e o que eles poderão fazer contra ela no mercado. Newsweek - Steve Ballmer nos disse, há pouco tempo, que a responsabilidade de ser o diretor-executivo de uma empresa é uma carga mais pesada do que ele esperava. Gates - Bem, eu o avisei, antes de ele assumir o cargo, que esse é um trabalho cruel. A pessoa torna-se alvo de exigências infinitas, e sinto que tenho muita sorte por contar com Steve. Acho que ele está se saindo exatamente como eu esperava.





