Entrevista
A ambição do poder compromete a paz
Escritor argentino ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1980 defende mudança da mentalidade do homem para solução dos conflitos
Mauro FrassonTristes fatoresEsquivel: ‘‘A violência não está apenas nas armas, está na fome, no desemprego, na falta de condições de vida digna’’Luciana Pombo
FolhaO que precisa ser discutido para que a paz seja colocada em prática no mundo inteiro?
Adolfo Perez EsquivelExistem muitos aspectos que interferem na paz. Mas creio que o problema central é a ambição pelo poder. A América Latina é um continente com muitas riquezas, mas empobrecido. A pobreza está dentro da abundância. Temos poucos que concentram muitas riquezas e muitos que não têm nada. O que falta é uma comunhão de uns com os outros, um processo de liberação das consciências.
FolhaE isto começaria pela mudança de um regime político?
Esquivel Acho que teria que começar pela mentalidade das pessoas, que compreenderiam, com consciência crítica, a necessidade da mudança das estruturas e sistemas. Nós temos uma cultura marcada pela violência. Quando nos ensinam história, nos ensinam guerras, revoluções, conflitos. Temos que estudar a história através da vida dos povos.
FolhaOnde a violência está mais evidente?
EsquivelA violência está no poder de dominação, quando o poder deveria ser de serviço. Os governantes e políticos deveriam estar a serviço do povo. É importante saber que atrás dos números de analfabetos e famintos está a esperança de crianças e adolescentes.
FolhaE como mudar a mentalidade dos governantes?
EsquivelOs povos devem participar. Eles não podem ser espectadores, têm que ser protagonistas de suas próprias vidas, de sua própria história. Por que a única forma de mudança existe quando o povo se coloca de pé.
FolhaIsto se daria através de uma revolução?
EsquivelAcredito que sim. Temos que ter uma cultura da solidariedade. Se existem necessitados, temos que contribuir para que todos fiquem de pé. Com isto, o povo terá força de mudanças políticas e econômicas. Quando somos apenas espectadores, são os outros que ditam nossas vidas.
FolhaO que falta para que esta mobilização ocorra?
EsquivelCultura, educação, consciência, inclusive através dos meios de comunicação que podem gerar consciência coletiva. Apenas com esta consciência é que o povo reagirá e poderá gerar melhores condições de vida. Temos que gerar uma cultura da paz, que não é a consciência do conflito. É uma capacidade permanente de resistência frente às injustiças. Senão, não há paz. Quando o povo reage e quer construir há grandes mudanças sociais.
FolhaO senhor fala muito sobre a questão da violência e das guerras. Qual a maior violência hoje vivida na América Latina?
EsquivelA violência não está apenas nas armas, está na fome, no desemprego, na falta de condições de vida digna. A dívida externa é a violência contra a vida dos nossos povos. As armas são instrumentos de morte. É curioso como os países têm agora Ministérios de Defesa. Creio que temos que mudar nossos conceitos e somente assim poderemos construir novos espaços. Temos que evitar guerras como a da Ioguslávia, que demonstram claros interesses políticos. Enquanto se gasta com armas, o povo tem fome, não tem recursos para o desenvolvimento da sociedade. Temos que mudar e isto tem haver com as políticas e interesses econômicos. Os que produzem os conflitos são os traficantes da morte, com a venda de armas.
FolhaE no caso da guerra da Iugoslávia?
EsquivelO grande tráfico de armamentos se evidenciou nesta guerra. Quantos milhões se gastou na guerra da Iugoslávia? Quantos milhões se gastou na guerra do Iraque? Cada míssil custa mais de US$ 1 milhão. Quantas escolas, quantas moradias, quantos hospitais poderiam ser feitos? Isto só denota o absurdo de toda esta situação. Absurdo provocado pelos intelectuais. Clinton fala sobre a paz e é o gerador da violência.
FolhaO governo federal quer proibir a comercialização das armas no Brasil. O senhor acredita que este seja um primeiro passo?
EsquivelAcho que é o primeiro passo, mas temos que proibir isto também na área militar. A América Latina é o continente que mais armas compra no mundo. Quais são as razões para isto? As fronteiras estão calmas, não há agressão de um país com o outro. Uma das grandes violências que vivemos na América Latina é a dívida externa. Quanto ais pagamos, mais devemos e menos temos.
FolhaMas como deixar de pagar a dívida externa?
EsquivelDevemos unir os países latino-americanos. Atualmente estamos divididos em pensamentos, em consciência, e temos entrado em conflito uns com os outros. A América Latina tem que olhar para dentro e ter pensamentos próprios. Temos que deixar de desconfiar uns dos outros, somos irmãos. Temos que ter a capacidade de nos unir e resolvermos juntos nossas capacidades. Este é um desafio grande: ter uma unidade continental. Isto requer uma mudança das consciências.
FolhaO Mercosul poderia colaborar para isto?
EsquivelSim. Mas o Mercosul é uma possibilidade, que ainda está centralizada nos poderes econômicos. O Mercosul será um caminho quando o pequeno e grande produtor agrário e industrial tenham entrada no Mercosul. A Europa tinha países que se enfrentaram em conflitos durante ciclos (Espanha x Portugal, Alemanha x Inglaterra). Hoje estão unidos não só economicamente, como também culturalmente, sem perder as identidades de cada povo. E eu creio que se tem que pensar em valores que poderiam ajudar não na globalização, mas na integração dos povos. A globalização não é boa.
FolhaPor quê?
EsquivelPor que a globalização está gerando um processo de aculturação e de dominação. O que se globaliza hoje? A dívida externa, as guerras no mundo com intervenções absurdas. Estamos sentados em frente a um televisor e vendo como se tem matado na Iugoslávia e na África (NR: a entrevista foi concedida antes do anúncio do fim da guerra nos Bálcãs). Estamos vendo mentiras nos meios de comunicação, que estão inseridos nesta cultura de globalização. O desafio ao meio de comunicação hoje é a liberação da linguagem e a formação de uma cultura da paz. A palavra está carregada de energia. Dependendo do uso da energia, nós poderemos liberar ou oprimir toda uma população.
FolhaComo o senhor vê a questão do julgamento internacional do ex-ditador chileno Augusto Pinochet?
EsquivelHá anos começamos a perceber a impunidade dos que matavam povos e buscamos formas de julgamentos em instâncias internacionais. Começamos pensando sobre as formas de punir os generais argentinos que foram os responsáveis pelo sofrimento de cerca de 600 espanhóis vítimas da ditadura militar. Buscamos as instâncias através dos direitos internacionais. O caso de Pinochet se enquadra nisto. Assim como no Brasil em 1964, aconteceu a ditadura militar com o golpe de estado e muitos sofreram torturas. Isto ocorreu em toda a América Latina. O julgamento internacional só está acontecendo porque existia uma impunidade jurídica nos nossos países latino-americanos. Tivemos que buscar as instâncias internacionais.
FolhaE isto teria que ser feito em todos os casos de ditadura ocorridos na América Latina?
EsquivelEm todos os outros. O que se está fazendo neste momento é aplicar o direito internacional. E não é só na América Latina. Estamos ainda perseguindo os ditadores nazistas para julgá-los. Os crimes que lesam a humanidade não prescrevem no tempo, eles são crimes de caráter contínuo e podem passar 50 anos, se tiver alguém vivo, ele poderá ser capturado e acusado. Estes crimes são genocídios contra a vida dos povos, portanto, são crimes que afetam toda a humanidade, não só a um país, um grupo humano. E isto foi o que se passou com o Pinochet.
FolhaO senhor participa ativamente do programa Crianças Para Paz. O que é exatamente este programa?
EsquivelAqui em Mandirituba, Região Metropolitana de Curitiba, há um projeto para abrigar os meninos de rua e drogados. É uma obra que começou com o trabalho da Aldeia Meninos para a Paz, que comecei na Argentina. Neste momento, temos 115 jovens, entre meninos e meninas, que são capacitados e recebem uma educação íntegra, com esperança de vida. Também trabalhamos em redes com organizações que trabalham com meninos e meninas de rua. É um trabalho de recuperação, inclusive de crianças com problemas de violência na família. Estamos trabalhando em distintos lugares para gerar condição de vida. Mas sabemos que é um problema estrutural. Acontece quando a família se desintegra e faltam recursos para a alimentação. Por isto, temos que trabalhar o conceito de solidariedade. Formamos meninos que aprendem um sentido de vida. A esperança é como a gasolina no motor de um carro. Sem gasolina, o motor não funciona. Com a gasolina, a força do carro começa a ser impulsionada. O mesmo acontece com a criança.

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