Entrevista - Cafeicultura requer controle de origem
Entrevista
Cafeicultura requer controle de origem
Ex-diretor da OIC prega organização da cadeia produtiva do café para garantir novos nichos no mercado internnacional
Patrícia Zanin
e Guto Rocha
Folha No primeiro mandato, o governador Jaime Lerner (PFL) bateu na tecla da industrialização, e para o segundo mandato, prometeu que sua estratégia seria viabilizar a agroindústria. Passados cinco meses desde o início do mandato, não se verificam avanços. Por que eles não estão ocorrendo?
Beltrão Mas eu vejo muitos avanços, principalmente relativos à área nacional. Na agroindústria, a desvalorização do real eliminou as dificuldades para a exportação. Não que isso afete muito produtos como café e soja, porque o volume muito grande acaba trazendo uma acomodação, mas isso abriu caminho para produtos menores. O câmbio estava dificultando certas exportações, principalmente aqui no Sul, por causa do Mercosul e da competição com a Argentina. A Argentina ficou numa situação melhor e com isso a agricultura temperada andou com mais dificuldade para competir. Tem muita coisa que precisa do mercado interno, e o Brasil tem um mercado interno muito grande, e ele pode, com a combinação de mercado interno e exportação, adquirir aquele volume de escala que permite entrar bem no mercado mundial.
Folha Mas em termos de agroindústria no Paraná, o que foi feito de concreto para que o produtor agregue valor à sua produção?
Beltrão Agregar valor é eliminar intermediações, acrescentando valor ao produto, em etapas. Outro dia eu visitei as cooperativas holandesas que venderam a marca para a Parmalat, mas para vender para a Parmalat precisa ser coisa boa, porque a Parmalat é uma inversora de escala mundial. Então você vê muita inversão desse tipo de nível empresarial e de nível cooperativo. Mas incentivar a agroindústria é, sem dúvida, pensar em melhorias de infra-estrutura. Acho que a infra-estrutura de transporte no Paraná está razoável. Não é aquela maravilha, não temos ferrovia nem hidrovia, mas para produtos mais caros isso não é tão importante. O Porto (de Paranaguá) precisa ser muito melhorado, mas não é tanto o porto. É o vínculo porto-aeroporto-armazéns-alfandegagem na origem, crédito. Essa ligação de forma de maximizar a vantagem é que estão sendo conversadas. O dinheiro ainda é muito caro, existe esforço para que o crédito seja barato e melhor distribuído. Há também uma preocupação nacional e paranaense sobre um conhecimento melhor de microclimas.
Folha Ainda falando sobre agregar valor ao produto. Quais são os problemas que dificultam maior ganho do produtor?
Beltrão Você ainda tem um alto Custo Brasil e empecilhos de estrutura. De portos, aeroportos, e até de embalagem. É preciso colocar o Brasil do mercado interno nos padrões do mercado internacional. Pense um País com 100 e tantos milhões de habitantes, produtor agrícola, e que pode trabalhar no mercado de competição. Não tem muitos, não. Na Europa inteira tem subsídios. Nos EUA tem, mas eles não têm tanta terra agrícola e variedades. A Califórnia, por exemplo, é toda irrigada; a Flórida é cheia de competições pela terra por causa do turismo, da geada. Em termos de infra-estrutura de País tropical, você não vê muitos. E na infra-estrutura, uma coisa puxa a outra. É preciso pensar em coisas integradas, adicionar valor. Ter a coisa para as várias etapas até chegar à venda. Quanto menos você tenha intermediários e quanto mais chega ao consumidor final, mais adiciona valor.
Folha O senhor diria que a infra-estrutura no Brasil ainda é um dos maiores problemas?
Beltrão É um gargalo. Os portos não são bons, a estrutura de governo, a Receita Federal, não há rapidez para trazer embalagem para colocar produto e depois exportar. Ainda carecemos de eficiência. Isso se chama hoje logística. É assunto velho com palavra nova. Na essência, é o bom senso. Poder combinar os ingredientes que você traga de qualquer lugar àquele que você faz e que repasse ao mercado de forma a mais eficiente possível. Então você tem de pensar que está no mercado. No Japão, crianças tomam café com leite de soja, e frio, que compram em máquina de Coca-Cola. Ah! Mas você pensa: esse produto não existe no Brasil, não há porquê. Ele se desenvolveu de forma cultural em que é totalmente diferente de outro lugar, onde é proibido, por exemplo, criança tomar café. Então, em cada lugar você vai encontrando uma forma de comercializar, de criar produtos que às vezes migram para outros. Você tem é de se adaptar àquilo. Se eu puder misturar leite de soja ao café, exportar daqui e o japonês pagar e puser a máquina lá, estamos todos felizes se eu puser mais barato na máquina do que ele.
Folha Onde o senhor quer chegar com esse exemplo?
Beltrão Eu peguei esse porque estamos sempre confrontando com exemplo em que o produto toma formas de maneira de apresentação totalmente diversas de um país ao outro. Há do outro lado uma padronização. Então, qual é o nosso caminho? Obviamente, pesquisar e olhar sob o ponto de vista da demanda, se estamos desenvolvendo um produto de qualidade, de acordo com os padrões. Não se trata de um mercado livre, mas aberto a competições dos que sabem jogar o jogo. É uma etapa que o Brasil entra com muita força. E o Paraná tem posição muito favorável.
Folha Mas algumas indústrias do Estado não estariam desprezando essa chamada posição favorável e deixando que, no caso do café, o Estado seja apontado pelas pesquisas da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), como o maior fraudador de café no mercado interno? É uma coisa grave porque o Paraná tenta buscar o padrão de qualidade Paraná para conquistar maior espaço e isso pode prejudicar o mercado...
Beltrão Não sei destas pesquisas e como se está avaliando a fraude. A fraude em café sempre foi uma atração, porque você podia misturar milho, palha e queimar tudo. E o café do Brasil, quanto mais queimado, mais você frauda, faz mais preço, gasta menos para fazer uma xícara. Talvez isso seja verdade também em outros produtos. A questão de qualidade depende de controle da origem. Gosto de comparar café com vinho. Você nota que por uma razão ou outra, você parte da mesma uva, mas você pode terminar com um vinagre ou com um Château Margot. Então, dependendo do caminho com que você trabalhe, com a uva você tem um produto ou outro. No fundo, a agricultura é parecida. Se você falar também do vinho ordinário, você pode fazer qualquer vinho. Se você falar de regiões, você tem vinhos muito baratos Bordeaux e muito caros Bordeaux. Não se pode falar de uma região. Veja que o vinho levou a tantas brigas que teve de ser codificado como origem e geografia de forma muito precisa. Os códigos são muito rígidos em toda a parte. Mas o café não tem código. A gente não fala de região. Tem que ser fazenda, propriedade e alguma coisa certificada, controlada e que responda do lado de lá o que o mercado queira e não o que o vendedor queira.
Folha Mas como conseguir esse controle de origem?
Beltrão É preciso uma organização dos vendedores para que não briguem, não fraudem. Para que se auto-policiem, porque vão, em conjunto, adicionar valor. Então têm certas regras que são importantes. É preciso que as regras sejam compreendidas e de fato haja valor adicionado do ponto de vista do comprador. Mas não devemos esquecer que o café é uma bebida complexa. A grande vítima é a água. Então todo mundo tempera a água para vender. Mas se você pensar, 99% é água, no vinho, na cerveja, na Coca-Cola, e no café. Então você está brigando pelo trade mark, pelo flavour da água. Pelo que você adicione ali. Agora, no grosso das indústrias que estão nessa categoria, você aprisiona a água e tempera em casa. No vinho, na cerveja, na Coca-Cola, você distribui a água presa. O café é das poucas bebidas em que você vende o aditivo para a água, sem muitas vezes prestar atenção nela. As águas variam muito e podem estragar um bom café.
Folha Mas não está longe de o consumidor brasileiro atentar para isso? Como e a quem cobrar?
Beltrão Existem regionalizações muito fortes e padrões que hoje a indústria está muito consciente, está querendo criar, e eu acho que a Abic e outros estão muito sérios nisso. Porque não tem mais risco do café subsidiado, vendido barato. É claro que não tendo café muito barato, há tentação da fraude. Mas em que não há tentação de fraude? No relógio não há fraude? Mas cabe também a você se assegurar que os padrões são respeitados, os mecanismos de fiscalização, controle. Agora sempre pensando que o café pode sair lindo, bom e perfeito da árvore, da propriedade, mas não está engarrafado. E tem uma série de intermediários que precisam ser policiados, aliados na cadeia para que a coisa chegue com a qualidade esperada no fim.
Folha Como garantir a qualidade de uma boa xícara de café?
Beltrão Na essência das coisas, o café é um desafio muito grande. Porque ainda é dos poucos produtos que dependem muito do consumidor. Não é fácil vender café em que o consumidor receba uma garrafinha e tome. Ele tem um intermediário. Ou é o consumidor, ou é o intermediário na cozinha, no bar, geralmente destreinado, ignorante, e que está pouco ligando. Mas, no café expresso, por exemplo, não existe o risco de guardar e ficar requentado porque a relação máquina-pó é muito direta. Você vê o café xícara a xícara. Curiosamente, o café que mais se difunde é o expresso, que tem características muito curiosas. É um café mediterrâneo, que pede muito café por via seca. O café brasileiro, seco ao sol, no terreiro, não pode ser colhido durante o ano todo como o café equatorial. Portanto, o Brasil criou o gosto do café por via seca em muitos países.
Folha Como o senhor vê o empenho dos institutos de pesquisa, especialmente o Instituto Agronômico do Paraná, o Iapar, na busca pela qualidade e melhoria do café?
Beltrão O Iapar está tentando muito bem eliminar os problemas por via seca, que são a maturação por desigual, a colheita dos grãos verdes e maduros, o sol mascarando tudo e os grãos caindo no chão porque não dá tempo de colher. E aí fica o café com gosto que deu má fama ao Paraná, mas que vinha muito da quantidade, do despreparo da infra-estrutura para produzir um café bom. As colheitadeiras mecânicas, a genética adequada e depois com tratamento e máquinas de benefício bem menores em que selecionam rapidamente o grão maduro do verde, isso tudo só vai dar uma base de boa qualidade. E essa base, bem controlada, dá uma xícara de boa qualidade. Tudo é questão de tempo.
Folha E como o mercado consumidor deve se comportar daqui para a frente?
Beltrão Hoje a indústria mundial do café concentra apenas três grandes torradores. Não existem mais marcas nacionais. Elas foram todas se concentrando. Mas dos próprios Estados Unidos estão surgindo os cafés de origem e qualidade e hoje tem uma série de novos competidores que desafiam o padrão-escala com o padrão-qualidade. Esses vão buscar na própria Colômbia esta ou aquela origem da bebida. E mais o que você vai querer saber não é se o café é colombiano, quer saber se o café é daquela propriedade. Isso começou com a Costa Rica, tem alguns aqui no Brasil, na Índia. É você criar a origem e a garantia da origem. Depois esse torrador vai dizer: eu daqui para frente faço tudo em boa ordem, até servir na xícara. E vai criar franquias em que ele vende o café na chegada e o comprador vai a uma loja destas, tomar uma xícara de café e tem a confiança de que aquele cidadão foi buscar um café não sei onde e vai ter a origem.
Folha Mudando de assunto, o que o senhor pensa sobre a privatização da Copel, a companhia de energia do Paraná?
Beltrão Não penso em Copel, mas de responsabilidade do governo daqui para a frente, de que ele tem que fazer investimentos estratégicos que, de fato, ajustem a sociedade aos novos desafios. Para mim, a decisão de vender ou de terceirizar a comercialização de terras no Paraná em 1920 foi uma decisão corajosa, que permitiu o florescimento do Norte do Paraná, e o governo da época tomou certas providências, embora tenha sido extremamente controvertido. Agora, com o debate sobre a privatização da Copel, acho que a população tem todo direito de repensar se quer dar prioridade a outros investimentos. Se vai privatizar ou não, o conceito de privatização é conceito de puramente reorientar a sua poupança.
Folha Quando o senhor diz que a população tem o direito de repensar, de reorientar sua poupança, o senhor não acha que o governo poderia consultar a população para saber se ela quer ou não que a Copel seja vendida?
Beltrão Não, não é questão de plebiscito. A importância está em escolhermos os representantes. É um processo democrático que você elege. Há uma auditoria e cobrança permanentes. E esse diálogo entre povo e eleito é um processo permanente, mas os temas vão mudando. Cabe aos políticos mostrar a clareza das proposições e, nesse caso específico da Copel, trata-se de clareza do destino de um recurso. E aqui se faz mais do que nos outros Estados, porque se criam comissões de pessoas confiáveis, ou se pensam que sejam confiáveis, e que funcionam como auditores desse processo de privatização.
Folha Mas o Estado deve se afastar mesmo desses serviços públicos essenciais, como é o caso da água, da energia?
Beltrão Para mim, o serviço público essencial é o papel do Estado em manter a sociedade modernizada e capaz de competir, de crescer e enriquecer. Essa essencialidade muitas vezes vem da antecipação, porque o negócio não é bom para o setor privado. Portanto, o capital de risco passa a ser coletivo. É como se é preciso pensar em bem alimentar as crianças para que elas estejam com saúde, nós estamos pensando nas populações daqui a 20 anos. É um papel que cabe ao governo estar muito atento para que sua população esteja sadia e atendida. Nesse sentido, os pais evocam os políticos e estão todos num mesmo objetivo. Mas isso não quer dizer que não haja diferentes formas de fazer isso e que não se deva buscar a forma mais eficiente. Se a forma mais eficiente é terceirizar ou vender, é questão de discussão caso a caso.
Folha O senhor acha que a privatização da Copel é inevitável?
Beltrão A etapa da prioridade energética da sociedade como ponto crucial já está vencida. Somos uma sociedade que está bem suprida de energia elétrica e cabe ao Estado ter política energética. Se é industrial do petróleo, do gás, da eletricidade, não é a prioridade. Aí é o aspecto secundário. Quem produz mais barato, quem é mais eficiente e quem é rico suficiente para poder fazer alguma coisa. O mundo muda, a velocidade é alta e é preciso, com seriedade, enfrentarmos novas situações, em que as prioridades dos anos próximos não são as de 20, 30 anos atrás, e a eletricidade eu coloco nessa categoria.
Folha A saída do ex-governador Ney Braga da presidência do Conselho de Desestatização da Copel abalou, de certa forma, esse processo, já que houve, por parte da família dele, uma reação de evitar desgaste. E a reação da população à privatização tem sido de questionamento...
Beltrão Não devemos confundir qualidade do serviço da Copel com questões de privatização ou não. A privatização é uma questão de melhora da capacidade de inversão do Estado. Se o Estado tem outras fontes de recurso para atender, ele pode se dar ao luxo de pensar duas vezes e não querer. Se não tem, deve colocar o problema de obter recursos para poder investir. Estamos hoje com orçamento que praticamente absorve pessoal e sobra pouco para custeio e investimento, nossa capacidade de endividamento está no limite para novas empréstimos externos. O Estado não vê como aumentar sua receita. Você tem o caminho da privatização, do investimento, que é a questão de terceirizar investimento na forma rodoviária, na parte de energia, pode privatizar porto. Há maneiras e cada um tenta de sua forma. Isso é em toda parte. Aqui, o processo da Copel se insere no quadro nacional. É um governo eleito com uma política de privatizar o setor elétrico e de telecomunicações. Dentro disso os Estados passam a ter uma latitude menor de opções. Mas a decisão de privatização do setor elétrico é correta e, no Paraná, temos de avaliar isso e fazer de tudo para levar a venda da Copel para que tenhamos o máximo de benefícios sociais da aplicação de recursos em frentes mais prioritárias.
Folha Mas o senhor não acha que está faltando debate sobre a privatização?
Beltrão Está ficando um problema meio afetivo. Amor por amor, eu, o Ney, essa velha geração tem a Copel no coração... Mas a gente tem de pensar na juventude que vem por aí... Há certas horas em que precisam ser tomadas providências que são cruciais para a continuidade do progresso da sociedade. Eu perguntaria: será que vender a Copel é um dos itens? Muita gente vai dizer não, que precisa gastar direito. Está bem, mas há uma necessidade de um debate bem tranqüilo, com intercâmbio e transparência. Não podemos arcar com o erro de não vender, termos o patrimônio desvalorizado e perdermos a oportunidade das inversões que nos são necessárias hoje. Isso não é perdoável para quem tem a responsabilidade de governo. Agora, transformar o erro em amor ou opinião pessoal, isso não. Todos nós realmente temos carinho que não está questionado. É questão de assumir responsabilidade em relação ao futuro.





