ENTRE QUATRO PAREDES
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2002
Aureliano Biancarelli 
São Paulo - Ciumento, violento, ''sarado'', o vigilante Cleber jogou álcool no corpo de Oseas e ameaçou tocar fogo. Se fossem à polícia, seria uma ''tentativa de homicídio'', mas o caso ficou entre as quatro paredes. Cleber e Oseas formavam um casal e viviam juntos havia dois anos. Sem registro, a agressão de Cleber transformou-se em mais um caso ignorado e não registrado de ''violência sexual entre casais homossexuais''
No mês passado, um manual lançado sobre o assunto pelo GGB, Grupo Gay da Bahia, fez lembrar que entre casais de homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais também podem ocorrer ameaças, humilhações, tapas e até mortes nada diferente do que ocorre entre alguns casais heterossexuais. A diferença, quando ela existe, é que nos casais heteros é o homem que costuma bater; nos outros, geralmente, é o mais fraco que apanha.
Números não oficiais divulgados pelo GGB estimam que mais de uma centena de gays, lésbicas e travestis (GLTs) são assassinados por ano, no Brasil. Segundo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e fiador desses números, entre cinco e dez desses casos seriam de amantes que mataram parceiros.
Pode parecer chute. Nos EUA, no entanto, o NCAVP, um programa que documenta violência doméstica entre casais gays registrou 3.327 casos em 1997. A área coberta representa 20% do território americano, o que significa que o total de casos naquele país passaria dos 16 mil. Esses seriam só os casos registrados em delegacias e pelas ONGs, um número infinitamente menor que o real.
A maioria dos líderes da comunidade homossexual diz que a violência contra eles especialmente a institucional é muito maior e mais preocupante que a violência entre eles, dentro do casal. Muitos são humilhados pela família, pela igreja, pela escola, e apanham da polícia. Também acreditam que a violência doméstica entre eles seja menor que entre casais heteros.
Rosangela Castro, do grupo de mulheres Felipa de Souza, do Rio, diz que a violência doméstica entre lésbicas existe, ''mas é muito velada''. ''A mulher não pode sequer expor sua sexualidade para a família e para a sociedade, como vai aparecer numa delegacia dizendo que apanhou da companheira?'', pergunta. ''Nem as delegacias da mulher têm profissionais preparados para nos receber.''
A cartilha do GGB chama a atenção para as várias situações que levam à violência entre os casais gays e sugere medidas para se ''evitar e superar este mal que faz de nós, não seres humanos, mas lobos e feras agressivas''.
''Infelizmente, o machismo impregna a todos nós, inclusive os gays, lésbicas, transexuais e travestis, e todos juntos, devemos batalhar pela construção de uma sociedade marcada pela cultura da paz e do amor, não da guerra''.
Beto de Jesus, 39 anos, militante gay e educador, diz que a violência institucionalizada é muito maior, mas aquela entre os homossexuais deve ser combatida da mesma forma. ''A violência tem uma mesma matriz, a baixa auto-estima. Só vai diminuir quando você conseguir ir ao Ministério Público e denunciá-la, quando deixarmos de entrar numa delegacia pela porta dos fundos.''
Mais informações sobre a cartilha do GGB pelo telefone (71) 322-2552 ou no site: www.ggb.org.br


