O amanhã é um conceito abstrato. Com o celular na mão e o carro ligado desde às 7 da manhã, o motorista de aplicativo Wesley Garcia Ribeiro, 44, sabe que o hoje será longo. E todos os dias, ele e milhares de trabalhadores, com o sorriso pontual, fazem tudo sempre igual, ganham a renda do dia. Segundo dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, em outubro de 2025, o Brasil tem 1,7 milhão de pessoas que trabalham por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços (transporte de pessoas, entrega de alimentos e produtos, serviços gerais ou profissionais), o que corresponde a 1,9% da população ocupada no setor privado. Entre 2022 e 2024 esse contingente cresceu 25,4%, ou seja, houve um acréscimo de aproximadamente 335 mil trabalhadores nesse tipo de ocupação.

Enquanto isso, segundo a PNAD Contínua, cerca de 40% da população ocupada no Brasil está na informalidade, o equivalente a cerca de 39 milhões de pessoas. Entre elas, uma parcela significativa não contribui com o INSS e, portanto, fica fora da rede institucional de proteção da previdência pública. O cenário mostra que o crescimento dos trabalhos por aplicativos também eleva as taxas de informalidade e reduz as contribuições previdenciárias.
O risco é silencioso e cumulativo. A cada mês sem contribuição, o futuro se estreita. No presente, as horas de trabalho são longas e o descanso, curto. No futuro, a conta chega. Para o advogado especialista em previdência Rodrigo Fagundes, “a aposentadoria do futuro não será dada, será construída. Cada contribuição, cada escolha de hoje é um investimento em segurança e dignidade para amanhã.” Nesse contexto, aposentar-se deixa de ser uma conquista automática da idade e passa a ser um ato de planejamento consciente.
É com esse sentimento que Ribeiro, depois de três anos e meio vivendo no Canadá, trabalhando como motorista de aplicativo e auxiliar na manutenção de telhados, voltou ao Brasil, decidido a reorganizar sua vida financeira. “Lá fora, percebi como é importante pensar no amanhã. Aqui, quero fazer as coisas certas desde já, contribuir com o INSS, uma previdência complementar e me preparar para o futuro”, afirma. Há dois meses rodando pelas ruas de Londrina, Ribeiro vive jornada que começa às 7h, logo após deixar a esposa no trabalho, e segue até as 17h. São cerca de dez horas diárias dedicadas a atingir suas metas, equilibrar custos e garantir uma boa renda, mas que, segundo ele, ainda não basta. “A gente precisa pensar que um dia pode não conseguir trabalhar. E quando esse dia chegar, quero estar tranquilo.”

A exemplo de Ribeiro também está a rotina de Cleia Regina da Silva, 48, que acumula mais de três décadas de trabalho e também de dores. Desde os 15 anos, ela trabalha em atividades que exigem esforço constante. Foram 15 anos como manicure e mais dois anos e meio como motorista de aplicativo. O resultado está gravado no corpo: lesão no carpo, tendinite, fibromialgia e dores intensas nos ombros. “A gente vai vivendo o dia a dia, pagando as contas, e sobra pouco. Parece que não tem espaço para pensar no futuro”, afirma.
Silva investiu por cerca de cinco anos durante a juventude, quando ainda teve empregos formais. Depois, assim que iniciou a vida como autônoma, não fez mais investimentos previdenciários. Hoje, sem vínculos e com dores que a acompanham diariamente, não possui nenhuma forma de proteção financeira. “O trabalhador independente pensa no agora, no que entra no fim do dia. A aposentadoria parece uma coisa distante, que não cabe no bolso”, diz. Ela admira quem consegue planejar o amanhã, mas admite que o orçamento apertado e a falta de orientação tornam o assunto quase inacessível. Silva segue dirigindo porque precisa, mesmo que as dores a castiguem. “Se um dia eu não puder mais trabalhar, não sei o que vai ser”, confessa.

Patrícia Machado, 42, mostra outro lado dessa questão: o da consciência "tardia". Assistente administrativo, ela contribuiu ao INSS quando CLT, mas não manteve aportes durante períodos de desemprego. “Eu sempre vi a aposentadoria como uma coisa muito longe de mim, algo que talvez nem fosse viver para ver. Achava que o dinheiro ficava parado e que era melhor aproveitá-lo de outra forma”, conta. Essa percepção mudou recentemente, ao observar a realidade dos próprios pais. “Eles têm segurança por causa da aposentadoria, e isso traz autonomia e bem-estar. Me fez pensar: como vai ser para mim daqui alguns anos?”, reflete.
Machado cuida da saúde, faz exames regularmente, mantém boa alimentação e pratica exercícios regulares. Mas compreendeu que proteção financeira é essencial, assim como os cuidados físicos e a saúde mental. “Fora do regime CLT, eu não planejei, nem paguei a previdência. Também não fiz uma previdência complementar.” Para ela, investimentos ainda parecem privilégio de poucos. “Sinto que investir é um privilégio. A gente trabalha, paga tudo e quase nunca sobra.”
A complexidade do sistema também assusta. “Acho indispensável consultar um especialista em previdência. Fazer isso sem orientação é difícil e até arriscado”, reconhece. A desinformação, especialmente os discursos de que “o INSS vai acabar”, também a afetou. “A gente ouve tanto que a Previdência vai acabar, que não vale a pena contribuir. Isso desestimula. Eu acredito que a Previdência vai passar por mudanças, mas não vai deixar de existir”. Machado tenta reaprender a olhar para o tempo. Ela repete uma frase que virou mantra pessoal: “Nunca vou ser tão jovem como sou hoje.” A maturidade trouxe urgência, mas também esperança. “Mas, ainda dá tempo de planejar”, afirma.
Entre os relatos, se desenha o retrato de um país que trabalha muito, contribui pouco, teme o amanhã e as estatísticas reforçam isso. Em 2024, entre os trabalhadores por aplicativos ou plataformas digitais, 71,1% estavam em situação de informalidade, bem acima dos 43,8% de informalidade entre os não plataformizados. Apenas 35,9% desses trabalhadores por aplicativo contribuíam para a Previdência Social, frente a 61,9% entre os demais ocupados. Enquanto os plataformizados declaravam um rendimento médio mensal de R$ 2.996, 4,2% acima da média dos não plataformizados (R$ 2.875), o rendimento-hora era inferior (R$ 15,4/h contra R$ 16,8/h). Jornadas mais longa e menor rendimento por hora trabalhada reforçam a vulnerabilidade desse grupo.
Cenário exige reflexão e ação
O crescimento do número de plataformizados sinaliza uma transição acelerada da formalidade para novos modelos de trabalho “cuja mudança não voltar atrás”, como diz a economista e professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e pesquisadora das relações entre trabalho, renda e desigualdade, Katy Maia. Para ela, há a impressão de que nunca se trabalhou tanto e, ao mesmo tempo, nunca se esteve tão desamparado. “A precarização hoje está vinculado a uma não regulamentação dos novos modelos de trabalho que incluem as plataformas digitais”, afirma. Esse modelo, que vem ocupando trabalhadores que antes estavam em empregos formais, não oferece garantias mínimas nem horizonte de estabilidade. “Eles (trabalhadores) não são empreendedores. Eles não definem o preço, não controlam seus custos, não têm segurança. Estão sozinhos, isolados e sem capacidade de negociação”, resume.
O discurso de autonomia, embalado pelo slogan do “seja seu próprio chefe”, funciona, na avaliação da economista, como cortina de fumaça para um problema estrutural. “É uma autonomia restrita, que só existe na aparência. Na prática, é o trabalhador que absorve todos os custos, todos os riscos e todas as incertezas”, afirma. Nesse ambiente, falar em previdência, aposentadoria ou investimento de longo prazo parece quase ficção científica. O problema central, insiste Maia, não é falta de consciência das pessoas, mas de condições reais. “A desigualdade é tão profunda no Brasil que, para boa parte da população, pensar o futuro é um luxo. As pessoas trabalham para sobreviver hoje.”

É uma autonomia restrita, que só existe na aparência. Na prática, é o trabalhador que absorve todos os custos, todos os riscos e todas as incertezas
Katy Maia -
Enquanto países da OCDE discutem como modernizar regras e criar redes de proteção para o trabalho digital, o Brasil ainda debate para garantir direitos mínimos. Aqui “o trabalhador faz 10, 12, 14 horas por dia e ainda precisa se preocupar com o carro que quebra, a saúde que falha, o aplicativo que ‘bugs’, celular que aquece, preço de combustível. Como esse trabalhador vai se organizar para contribuir para o INSS ou para uma previdência privada?”, questiona Maia. Na prática, o curto prazo consome qualquer tentativa de investir no futuro.
Para a economista, porém, não existe saída possível sem colocar a educação no centro do debate. Não apenas a educação financeira, muitas vezes tratada de forma moralizante, mas uma formação mais ampla, que envolva cidadania, organização coletiva, compreensão do sistema previdenciário, consumo consciente e planejamento de vida. Maia coordena na UEL o projeto de extensão "Clube das mães unidas", que ensina finanças para mulheres de todas as idades que iniciam no empreendedorismo. “Tudo começa na educação. E não é dizer para a pessoa ‘você precisa poupar’, porque isso é vazio. É ensinar como o sistema funciona, como precificar seus produtos, como se assegurar, entre outros fatos ”, afirma.
Além da dimensão individual, a economista critica a ausência de políticas públicas compatíveis com a complexidade do mercado de trabalho atual. “Não existe solução individual para problemas estruturais. Não adianta dizer que a responsabilidade é toda do trabalhador se o Estado não acompanha a transformação do trabalho”, afirma.
Na visão da economista, o Brasil precisa agir em três frentes ao mesmo tempo: regulamentar novos modelos de trabalho, investir em educação e fazer uma reforma tributária. A última, auxiliaria com os encargos de pequenas e médias empresas que poderiam adotar modelos coletivos de previdência complementar que são modelos em grandes empresas.
Maia insiste que a discussão sobre aposentadoria, previdência e investimento não pode ser tratada apenas como assunto técnico, restrito a especialistas ou planilhas de projeção. Trata-se, segundo ela, de pensar a sustentabilidade do país como um todo. “O impacto das escolhas de ‘hoje’ no ‘amanhã’ será social, econômico e político. Haverá pressão sobre a assistência social, aumento da pobreza entre idosos, sobrecarga das famílias e um nível de instabilidade que ultrapassa o drama individual e se transforma em problema coletivo. “É o futuro do país que está em jogo. Não só o futuro de cada indivíduo”, afirma.
Proteção imediata, segurança para o futuro
O especialista previdenciário Rodrigo Fagundes argumenta que o primeiro passo é mudar o olhar sobre o próprio sistema da previdência. Em vez de enxergar apenas como um benefício futuro e distante, ele propõe tratá-lo como um seguro de proteção ao longo da vida ativa. “Não vejam a previdência só como aposentadoria, enxerguem como seguro, uma proteção para sua vida”, afirma. Essa rede de proteção aparece em momentos concretos: afastamento por doença, acidente que reduz a capacidade de trabalho, salário maternidade, pensão por morte para a família. “Se você, por algum motivo, tiver um acidente, tiver alguma sequela, você tem um auxílio-doença, um auxílio-acidente. Se vier a falecer, pode deixar uma pensão por morte para sua família, para ajudar as pessoas que você normalmente ajudava a pagar as despesas”, enumera.
Em meio a tantas regras, o especialista aponta passos práticos para qualquer trabalhador, formal ou informal, começar a se organizar. O primeiro é encarar a própria trajetória previdenciária de frente. “Você pode entrar no site meu.inss.gov.br, com seu login do gov.br. Tem um extrato de contribuições e um simulador de aposentadoria. Veja quanto tempo falta, veja se estão todos os empregos, se os períodos estão corretos”, orienta. Documentos antigos, como carteira de trabalho, rescisões, carnês pagos como autônomo e holerites, ainda têm papel importante para corrigir falhas do sistema, sobretudo para quem tem 20, 30 anos de mercado.

Entre trabalhadores informais, o cenário é mais delicado. Muitos sequer sabem que, do ponto de vista legal, quem exerce atividade remunerada deveria contribuir ao INSS. “Vamos fazer um parêntese: se ele está trabalhando, exerce atividade remunerada, teria que fazer sim o pagamento do INSS”, pontua. As opções variam entre o contribuinte facultativo, o autônomo, o MEI ou a contribuição como empresário. O MEI, em geral, é a porta de entrada mais barata, mas também a que tende a manter o benefício preso ao salário mínimo. “Ele foi feito para ser uma opção barata. Dá direito a auxílio-doença, aposentadoria por idade, salário maternidade e pensão por morte, mas quando é feito com alíquota de cinco por cento, ele fica sempre vinculado a um salário mínimo”, explica. A possibilidade de complementar a contribuição existe, mas na prática quase ninguém faz.
É preciso mudar a forma de pensar previdência, apenas como aposentadoria e pensar como proteção
O especialista sugere combinar a previdência oficial com outras fontes de renda, como previdência complementar, investimentos financeiros e um imóvel para aluguel.A previdência privada aberta entra nesse ponto como reforço. “Em via de regra, vale a pena investir a partir do momento que você já tenha uma contribuição na previdência oficial”, diz Fagundes. Em alguns casos, o ganho é evidente, como empresas que fazem aporte conjunto em planos corporativos. “Você deposita R$ 100 na previdência privada, a empresa deposita mais R$ 100 ou R$ 200. Nesses casos pode ser uma estratégia benéfica.”
Criada para somar: previdência complementar é elo para futuro tranquilo
A previdência privada aberta avança no Brasil e movimenta cifras que mostram sua relevância crescente no planejamento financeiro dos brasileiros. Segundo dados da FenaPrevi, os tradicionais planos PGBL e VGBL e o FAPI somaram R$ 122 bilhões em captação bruta entre janeiro e setembro de 2025, um volume expressivo mesmo diante do cenário econômico desafiador. No mesmo período, os resgates alcançaram R$ 114,7 bilhões, resultando em uma captação líquida de R$ 7,3 bilhões, sinal de que, apesar do aumento das retiradas, ainda há expansão na formação de reservas de longo prazo.
O setor também demonstra amplitude no alcance da população: são 11,2 milhões de participantes, considerando CPFs únicos, e 13,6 milhões de planos ativos, entre individuais e coletivos. Os planos individuais representam a maioria, com 10,8 milhões, enquanto os coletivos somam 2,8 milhões, reforçando a tendência de adesão por decisão pessoal e não apenas via empregadores.
A maior parte da captação bruta está concentrada em VGBL, produto que responde por 88% das contribuições, enquanto o PGBL representa 10% e os planos tradicionais, 3%. A mesma distribuição aparece nos resgates, refletindo o perfil predominante de quem busca acumulação de recursos com foco em flexibilidade tributária. Nos resgates, 46% são totais e 54% parciais, evidenciando que grande parte dos participantes utiliza a previdência como estratégia de liquidez e não apenas como aposentadoria futura.
O volume de ativos administrados pelo setor chega a R$ 1,7 trilhão, valor que consolida a previdência privada aberta como um dos maiores instrumentos de poupança de longo prazo do país. Para especialistas, esses números reforçam o papel da previdência complementar na sustentabilidade financeira dos indivíduos e na capacidade do mercado segurador de investir em projetos estruturais da economia.
Para John Liu, vice-presidente da Comissão de Produtos de Sobrevivência da FenaPrevi, entender o avanço do sistema passa por compreender o contexto brasileiro. Segundo Liu, o país se sustenta hoje sobre três pilares distintos. O primeiro é a previdência pública, o INSS, baseada no chamado modelo de repartição. “As pessoas atuais, que estão trabalhando, contribuem e pagam a aposentadoria das pessoas que já trabalharam no passado”, resume. Um sistema de caixa que depende da força de trabalho ativa contribuindo mensalmente. Em um cenário de envelhecimento da população, alto nível de informalidade e longos períodos sem contribuição, essa engrenagem tende a ficar cada vez mais pressionada.

O segundo pilar é o das entidades fechadas de previdência, os fundos de pensão de funcionários de grandes empresas, estatais e fundações. São modelos tradicionalmente associados a carreiras estáveis, muitas vezes em bancos públicos, empresas como Petrobras ou Correios, além de algumas corporações privadas que mantêm planos para seus quadros. Não é o universo da maioria dos trabalhadores brasileiros, especialmente daqueles que já começaram a vida profissional no mundo fragmentado dos aplicativos, dos contratos temporários e da abertura de CNPJs individuais.
É no terceiro pilar, o da previdência complementar aberta, que a FenaPrevi atua e onde está a principal oportunidade de inclusão previdenciária hoje. “A previdência aberta é, entre aspas, livre. Qualquer indivíduo pode contratar um plano, com contribuições que começam a partir de valores baixos, como R$ 10 ou R$ 100”, explica Liu. Aberta significa exatamente isso: não é preciso ter vínculo com uma empresa específica nem estar em um plano de carreira tradicional. Basta ser pessoa física ou, em alguns casos, contratar como pessoa jurídica. O produto se adapta a quem é CLT, a quem é autônomo, trabalhador plataformizado e a quem presta serviço como PJ.
Dentro desse universo, dois nomes aparecem com mais frequência nas propostas e nos folhetos dos bancos e seguradoras: PGBL e VGBL. São as siglas que assustam à primeira vista, mas que, no fundo, organizam um raciocínio simples, baseado na forma como o contribuinte declara o Imposto de Renda. “O contribuinte-investidor tem duas grandes decisões. A primeira é entender como funciona a declaração de Imposto de Renda, porque, a depender do modelo, existem benefícios distintos da previdência para a pessoa”, ensina Liu. Quem faz declaração completa tende a se beneficiar do PGBL, que permite abater até 12% da renda tributável. “Se a pessoa ganha R$ 100 mil no ano, ela pode aportar até R$ 12 mil no PGBL. A base de pagamento de imposto sai de R$ 100 mil para R$ 88 mil. Em vez de pagar imposto sobre o valor cheio, paga sobre a base reduzida. É um benefício imediato”, explica.
Já para quem faz a declaração simplificada, a indicação é o VGBL. Nesse caso, não há abatimento na base de cálculo do Imposto de Renda no momento do aporte. O benefício vem na saída: “Quando a pessoa for resgatar, vai incidir Imposto de Renda somente sobre a rentabilidade, como em outros investimentos. Se colocou R$ 100 e o fundo rendeu para R$ 110, paga imposto apenas sobre os R$ 10 de rentabilidade”, detalha Liu. Em ambos os modelos, o desenho é pensado para favorecer quem olha o horizonte mais distante que a próxima fatura do cartão.
Outro mecanismo que reforça esse olhar é a tabela regressiva de Imposto de Renda aplicada aos planos de previdência. Quem resgata logo nos primeiros anos paga alíquotas altas. Quem permanece investindo por mais tempo é premiado com uma tributação menor. “No curto prazo, a alíquota é bastante alta, começa em 35%. A partir do décimo ano, cai para 10%. É uma ferramenta muito boa para incentivar a poupança de longo prazo”, afirma Liu. Na prática, o produto desestimula o comportamento impulsivo de entrar e sair rapidamente e favorece quem consegue manter disciplina de aporte, mesmo com valores pequenos, ao longo dos anos.
Para os trabalhadores sem vínculo formal, essa lógica pode ser a diferença entre chegar à velhice dependendo exclusivamente da assistência pública ou contar com uma reserva própria, acumulada aos poucos. “É necessário poupar para o futuro, especialmente para uma idade mais avançada, quando a capacidade de gerar renda cai e os gastos com saúde aumentam.” Para Liu, nesses casos, a previdência complementar aberta funciona como veículo estruturado para guardar esse dinheiro, com regras de aportes flexíveis e possibilidade de suspender, reduzir ou aumentar as contribuições ao longo da vida, de acordo com as fases e imprevistos de cada um.
Hoje todos podem ter uma previdencia complementar, tem produtos R$10,00, R$100,00 e assim por diante"
John Liu -
Além da lógica financeira e tributária, há ainda um caráter de proteção familiar que aproxima a previdência de um seguro de vida. Em caso de morte do titular, os recursos acumulados podem chegar rapidamente aos beneficiários indicados, sem precisar enfrentar o caminho lento e custoso do inventário. “Se a principal mantenedora da renda familiar vier a falecer, os recursos vão diretamente para quem ela indicar, para os filhos, para o cônjuge, sem passar pelo espólio. Ter esse tipo de recurso líquido imediatamente ajuda bastante a família quando o principal provedor estiver faltando.”
A sensação de segurança, porém, não nasce apenas da promessa do produto, mas da forma como o setor é regulado. Os planos de previdência complementar aberta são supervisionados pela Susep (Superintendência de Seguros Privados) que estabelece normas de solvência, acompanha as carteiras e certifica quais seguradoras estão autorizadas a operar. “É um produto seguro, estável, que vem crescendo bastante nos últimos dez, vinte anos. Está no outro lado das pirâmides e golpes em que muitas pessoas caem por falta de informação”, compara Liu. Para escapar dos falsos consultores e dos anúncios suspeitos que se multiplicam na internet, a orientação é objetiva: checar sempre se a empresa é autorizada pela Susep e, como camada extra de segurança, se é associada à FenaPrevi. “No site da Susep e no site da FenaPrevi estão as seguradoras que atuam dentro das regras do mercado brasileiro. Isso reduz muito o risco de comprar gato por lebre”, reforça.

Nada disso, porém, resolve o problema central apontado por ele: a ausência de educação financeira. “Hoje não temos educação financeira nas escolas e pouquíssimos cursos superiores tratam do tema, quando deveria ser algo óbvio para todo mundo”, critica. A recomendação é que cada pessoa aprenda a separar mentalmente seus “potes” de dinheiro. Um para o curtíssimo prazo, que garante liquidez para despesas diárias, emergências e planos imediatos. Outro para o longo prazo, intocável, voltado à aposentadoria e à velhice. A previdência complementar aberta se encaixa exatamente nesse segundo pote, ao lado da ideia de que envelhecer com dignidade exige planejamento muito antes da idade de pedir o primeiro benefício.
E apesar, do ambiente dominado pelo medo de golpes, por fake news que distorcem o debate sobre previdência e pela dificuldade de enxergar o próprio futuro, os especialistas são unânimes: é preciso começar, mesmo que tarde, mesmo com dificuldade, mesmo que com pouco, agora.

