Num barraco improvisado com telhas de zinco, madeira e tecido, quente e tomado pelo cheiro de esgoto no maior dos acampamentos da capital haitiana, vive Marie Andregge, 24. São apenas dezesseis metros quadrados para oito filhos, marido e os pais. ''Ninguém trabalha, a única renda é dos caroços de jaca que cozinho para comer e vender. Mas não perco a esperança. O novo presidente irá me dar emprego e casa'', espera.
São 50 mil pessoas amontoadas no campo ''Jean Marie Vincent'', uma antiga pista de pouso da extinta Força Aérea Haitiana. O cenário é surreal. Barracas e tendas foram construídas em meio a carcaças de aviões e helicópteros de guerra. As crianças se divertem no ''comando'' das aeronaves. Os adultos ajeitam-se nos helicópteros para conversas no fim de tarde. A segurança é responsabilidade dos Fuzileiros Navais brasileiros.
A fragilidade das aglomerações de desabrigados torna-se mais assustadora com a temporada de furacões, que começou em 1º de junho e tem o Haiti em sua rota. Este ano, a agência meteorológica do governo norte-americano está prevendo a formação de 6 a 10 furacões, sendo que entre três e seis podem atingir 177 km/h. Para desespero do recém-empossado presidente, o cantor popular Michel Martelly.
Além de mais destruição e mortes, os furacões trazem as enchentes, que podem reacender a epidemia de cólera, que já matou ao menos 4,5 mil haitianos nos últimos meses. A gravidade da epidemia de cólera no Haiti é confirmada pela embaixatriz Roseana Kipman, que é bióloga e ajudou no atendimento as vítimas. ''A cólera no Haiti mata em quatro horas, não tem tempo nem de chegar num hospital. As pessoas do bairro vinham até nós, dávamos soro, botávamos em certa condição para elas irem para um hospital. É horrível, os doentes vão ficando molinhos e ai não conseguem se mexer. A maior parte da população sobreviveu ao cólera, porque simplesmente são resistentes. Uma cólera dessas no Brasil teria matado metade do país.'' (S.R.)

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