Entidades querem currículo específico
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segunda-feira, 27 de julho de 1998
Evandro Éboli Especial para AE 
As entidades que participam a partir de hoje da Conferência Nacinal por Uma Educação no Campo, em Luziânia (GO), querem que o governo trate de forma diferenciada e específica o sistema educacional que está sendo oferecido no meio rural. Educação como formação humana, que constrói referências culturais e políticas para a intervenção das pessoas na realidade, diz o texto base da conferência, que reúne Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e Universidade de Brasília (UnB). O governo não discute o conteúdo programático das escolas rurais, enfatiza os valores da cidade, e acaba contribuindo para o êxodo rural, o que é péssimo, disse Ana Catarina Braga, oficial da área de educação da Unicef.
Uma das críticas dos setores envolvidos nesta conferência é a proliferação das escolas-pólo em vários regiões do Brasil. Os setores de educação de municípios e Estados se incumbem de colocar ônibus e kombis à disposição dos alunos para estudarem em escolas distantes até a 70 quilômetros de seu lugar de origem. A criança é educada para gostar do meio urbano, reclamou o coordenador nacional de educação do Movimento Sem-Terra, Edgar Kolling. Quando pedimos que se valorize a escola rural não é para tornar nossas crianças um bando de Jeca Tatu, acrescentou Kolling, em alusão ao personagem criado pelo escritor infantil Monteiro Lobato.
O documento quer um currículo escolar rural que valorize os grupos sociais que vivem no campo, que contemple a relação com o trabalho na terra. Propõe, ainda, por exemplo, a necessidade do resgate do conceito de camponês. Segundo documento distribuído pela organização, os significados dessa palavra são sempre perjorativos. Os dicionários tratam esses sujeitos como atrasados, preguiçosos, ingênuos e incapazes.
Para o coordenador do MST, o Ministério da Educação desconhece o campo. Kolling criticou a ausência do serviço dos Correios nas regiões onde estão instaladas escolas rurais. É um fator que dificulta que o professor faça contato com as novidades nos métodos de ensino, afirmou. Ele disse também que a TV Escola, um programa do MEC, chegou a apenas dez, das mil escolas nos assentamentos do MST. A conferência reúne, de hoje a sexta-feira, mais de mil educadores e lideranças políticas e rurais do País, que vão aprovar um documento final sobre o tema.


