Entidades na defesa de pacientes com câncer
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
A moradora de Francisco Beltrão, Yara de Abreu, entende bem as dificuldades enfrentadas por quem é diagnosticado com câncer. Voluntária na ONG Mão Amiga, Yara estava com 50 anos quando precisou encarar as sessões de radioterapia. "Eu sou uma sobrevivente do câncer de mama. Passei por todo o tratamento. É bem doloroso. Eu senti tudo isso", contou. O tumor foi descoberto há 12 anos em um exame de rotina e foi necessário retirar um dos seios. A mama foi reconstruída em seguida e a experiência serviu como motivação para ir além.
Diante das histórias de vida e das inúmeras dúvidas das outras pacientes, Yara e amigas decidiram criar a ONG para levar informação à comunidade e lutar por melhorias na assistência aos pacientes. "Faltam campanhas de conscientização o ano todo sobre os vários tipos de câncer. Outro grande problema é a demora na realização das cirurgias pelo SUS. Elas precisam ser feitas em menos de 60 dias, mas algumas pessoas levam de 6 a 8 meses para conseguir passar pelo procedimento", criticou.
A voluntária representou uma das 21 entidades que participaram do 1º Encontro Paranaense de Cacons e Unacons realizado nesta quinta e sexta-feira em Londrina. As siglas se referem aos centros de assistência construídos para o atendimento aos pacientes com câncer. No Paraná, 5 Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons) e cerca de 20 Unidades de Assistência de Alta Complexidade (Unacons) oferecem exames para diagnóstico e tratamento da doença. No entanto, falhas na estruturação da rede de assistência fizeram com que representantes de ONGs e da comunidade, servidores públicos e profissionais da saúde discutissem propostas de melhorias para o setor.
O radio-oncologista Renan Casagrande, que atua no Hospital do Câncer de Londrina (HCL), destacou que há atrasos na prevenção, no diagnóstico e no tratamento da doença. Segundo ele, as mortes causadas por algum tipo de câncer devem ultrapassar os óbitos relacionados a doenças cardiovasculares. "A gente ainda não está preparado para atender toda essa demanda de casos novos que vão aparecer. Faltam equipamentos, estrutura física e especialistas", destacou. Como solução inicial, o médico defendeu a realização de um estudo econômico para a utilização dos recursos escassos disponíveis para a área da saúde. "Hoje em dia, temos uma distribuição muito errônea desses recursos. É preciso avaliar em que itens os investimentos trazem mais benefícios para os pacientes, como a compra de equipamentos, por exemplo, em vez de determinado medicamento", apontou.
O câncer de mama é o que apresenta maior incidência no Paraná, seguido do câncer de cólon e reto, de útero, de pulmão e de próstata. A vice-presidente dos Hospitais de Câncer do Brasil e gestora de ações estratégicas do Hospital de Câncer de Londrina, Mara Fernandes, espera que as propostas tenham resultado efetivo nos próximos anos. "A gente precisa mudar e melhorar as estruturas. Alguns tipos de câncer tem 100% de chance de cura. Temos que fazer mais ações de conscientização, investir em prevenção e diagnóstico", ressaltou.
O evento foi organizado pelo HCL com o apoio da Associação de Entidades de Mulheres do Paraná. A vice-presidente da associação, Rosalina Batista, lembrou que a fila de espera para a consulta com um oncologista na rede básica de saúde em Londrina é de até um ano e meio. "Não é aceitável a gente perder tantos homens e mulheres para o câncer. Por isso esse encontro e essa discussão são tão importantes. Uma das propostas é a criação de um comitê voltado para acompanhar os atendimentos desse setor. Isso poderia ajudar a perceber como esse atendimento pode melhorar", afirmou. A intenção é realizar o encontro a cada dois anos. O documento final com as 30 propostas discutidas será encaminhado às secretarias municipais de Saúde, ao governo do Estado e à Assembleia Legislativa do Paraná.


