Rio, 11 (AE) - O número oficial de mortos é de oito operários - mas testemunhas garantem que mais de 30 pessoas morreram no confronto entre a Polícia Militar e trabalhadores da Usiminas, em Ipatinga (MG), naquele trágico 7 de outubro de 1963. O Massacre de Ipatinga, como foi batizado na época, ficou praticamente esquecido na poeira de tantas histórias da repressão política no País. Ninguém ficou preso, ninguém pagou pelos mortos. Agora, militantes de movimentos de direitos humanos da cidade querem rasgar o véu que há 36 anos encobre a chacina: eles reinvidicam a inclusão das famílias dos operários na lei que obriga a União a indenizar vítimas de prisão por motivos políticos.
Na segunda-feira, o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Ipatinga, Robinson Ayres Pimenta (PT), entregou um requerimento ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Nilmário Miranda (PT-MG), pedindo que o caso seja incluído no projeto de lei que amplia os benefícios para vítimas de manifestações de rua. "Se for aprovado, o projeto já abre a possibilidade de que as vítimas de Ipatinga sejam beneficiadas", garante Miranda.
A Lei 9.140/95 prevê a indenização, por parte da União, para pessoas ou familiares de mortos sob a tutela do Estado no período de setembro de 1961 - antes ainda do regime militar - a agosto de 1979. A dificuldade de comprovar que as vítimas da repressão em manifestações de rua já estavam dominadas quando atingidas tornou inviável a aprovação desses casos pela comissão especial que analisa os processos.
A minuta de projeto de lei, apresentada por Miranda ao ministro da Justiça, José Carlos Dias, amplia não apenas os benefícios, mas também a data, estendida até 1985. "O projeto, que, por envolver gastos adicionais, é prerrogativa do Poder Executivo, conta com a simpatia do ministro", afirma o deputado.
Revolta - O Massacre de Ipatinga é um caso exemplar para a extensão da lei. "A chacina fez parte da preparação do golpe militar", diz Ayres. O governador de Minas Gerais era Magalhães Pinto, um dos líderes civis do golpe que ocorreria seis meses depois. Tudo começou, na verdade, por um motivo prosaico: os operários que participavam da construção da Usiminas, então uma empresa de economia mista, ressentiam-se do tratamento rígido dispensado para entrar e sair da usina, como revistas e apresentação de documentos. Eram ainda desorganizados - o sindicato dos metalúrgicos de Ipatinga nem sequer existia - e quem liderou a passeata até a fábrica e sentou à mesa de negociações foi o pároco local, padre Avelino Marques.
A marcha foi-se engrossando. Os 17 soldados da Polícia Militar que guardavam a usina se apavoraram diante da multidão de cerca de 10 mil pessoas e abriram fogo. A lista oficial de mortos desbotou na memória da população - o Fórum Ipatinguense de Cidadania Ativa, a organização não-governamental que acompanha o caso, não conseguiu localizar ainda os familiares de Aídes Dias de Carvalho, Alvino Ferreira Felipe, Antônio José Reis, Geraldo da Rocha Gualberto, Gilson de Miranda, José Izabel do Nascimento e Sebastião Tomé de Souza.
A oitava vítima, Eliana Martins, era um bebê de apenas três meses, metralhado no colo da mãe. "A lista inclui apenas os mortos no local, mas sei que vários outros morreram nos hospitais da região", diz o padre Avelino. Além dele, coveiros e sindicalistas calculam os mortos em mais de 30. Houve dois inquéritos, um policial-militar e outro da Polícia Civil. Ambos concluíram pela culpa dos 17 PMs que, como punição, perderam - os que tinham - suas patentes. Mas nem foram expulsos da corporação. "Tempos depois, encontrei um cabo que fazia parte do grupo dos 17 e ele me disse que todos haviam sido posteriormente promovidos", conta o padre. "Não se tem notícia de ninguém que tenha ficado preso por esse crime."
CPI - A Assembléia Legislativa chegou a abrir uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), que não deu em nada. "Todos os documentos dessa CPI desapareceram dos arquivos da Assembléia", reclama Ayres. Em Ipatinga, a tragédia dos oito operários virou apenas uma referência: a data 7 de Outubro dá nome a um centro esportivo e a uma escola.
E alguns que ainda se lembram preferem apostar no esquecimento. "Eu não quero falar sobre essa bobajada", declarou o presidente da Usiminas na época, Amaro Lanuri Junior, ao ser procurado pelo Estado.

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