Valmir Denardin
Enviado a São Miguel
do Iguaçu
Entidades de esquerda estão planejando um plebiscito nacional para que os brasileiros decidam se são favoráveis à suspensão do pagamento das dívidas interna e externa. A votação deverá ocorrer na Semana da Pátria - entre 2 e 7 de setembro. Se a moratória for aprovada na consulta popular, as entidades usarão o resultado para pressionar o governo a adotar as medidas.
O anúncio do plebiscito foi feito no final da tarde de anteontem, em São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu), pelo coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile. Ele participa do 14º Encontro Estadual do MST, que está sendo realizado na Fazenda Mitacoré, ocupada há dois anos e meio pelo movimento.
Além do MST, o fórum nacional que organiza a consulta popular é composto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Central dos Movimentos Populares (CMP). Segundo Stedile, a iniciativa foi da CNBB, para marcar o Jubileu 2000. Pela tradição bíblica, a cada 50 anos os fiéis são motivados a perdoar as dívidas e dividir os bens. ‘‘É hora dos países ricos fazerem isso’’, disse Stedile.
Entre maio e agosto as entidades promoverão uma campanha nacional de esclarecimento sobre o plebiscito, com divulgação em meios de comunicação, palestras e debates. No período de votação, urnas serão espalhadas por todo o País. Poderão votar maiores de 16 anos, apresentando qualquer documento. Os detalhes da votação serão definidos em fevereiro, por uma comissão de juristas da OAB.
‘‘Se conseguirmos que milhões de brasileiros votem contra, teremos um instrumento de pressão para que o governo declare moratória e use os recursos na área social’’, afirmou Stedile. Segundo ele, no ano passado o governo gastou R$ 120 bilhões no pagamento de juros da dívida interna, enquanto o orçamento do Ministério da Educação atingiu menos de 10% desse valor - R$ 11 bilhões.
Além do plebiscito, Stedile anunciou que o MST vai liderar, entre os meses de junho e julho, uma grande mobilização envolvendo entidades de trabalhadores rurais para pressionar o governo a mudar as regras de distribuição e ampliar os recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf).
Neste ano, o MST adotou a estratégia de intensificar ações de integração com os moradores de municípios que sediam assentamentos ou acampamentos. A partir de maio, o movimento vai promover uma nova exposição de trabalhos do fotógrafo Sebastião Salgado. Com o tema Êxodos, a exposição vai percorrer mil cidades brasileiras. Para Stedile, essas ações servem como contrapropaganda ao que ele considera uma campanha da mídia contra o MST. ‘‘Só saem notícias ruins. O lado bom não está aparecendo.’’

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