Imagem ilustrativa da imagem Entidades e coletivos se mobilizam após violência contra angolanos em Maringá
| Foto: Marcos Zanutto/-7-5-2019

Oito entidades e coletivos de Maringá pedem a identificação e a punição dos responsáveis pela violência contra dois jovens angolanos ocorrida na cidade neste final de semana. Os rapazes foram espancados em um estabelecimento comercial na zona sul. As agressões teriam sido feitas sob insultos racistas e xenofóbicos.

Imagem ilustrativa da imagem Entidades e coletivos se mobilizam após violência contra angolanos em Maringá
| Foto: Marcos Zanutto/-7-5-2019

“Lutamos para alcançar o dia em que possamos, de fato, construir uma sociedade democrática e livre onde todas e todos tenham sua liberdade de ir e vir e seus direitos de cidadania garantidos”, diz um trecho da nota de repúdio. Entre os que assinaram o documento estão representantes da Pastoral Afro-brasileira da Arquidiocese de Maringá, a Associação União e Consciência Negra de Maringá e a Associação dos Estrangeiros Residentes na Região Metropolitana de Maringá.

Imagens de celular disponibilizadas à Polícia Civil mostram ao menos seis pessoas agredindo os dois clientes na noite do último sábado (7). Os angolanos estavam consumindo bebida alcoólica em mesas colocadas em frente à cervejaria. Eles entraram várias vezes no estabelecimento comercial para levar as bebidas já pagas. As agressões ocorreram no final da noite.

As vítimas chegaram a ficar desacordadas depois de serem atingidas por diversos chutes e pontapés, inclusive na cabeça. Em seguida, integrantes do grupo arrastaram os angolanos para fora do estabelecimento. Um deles chegou a ser internado no Hospital Universitário de Maringá e recebeu alta no dia seguinte.

Segundo Mário Henrique Alberton, advogado dos rapazes agredidos, os dois clientes retornaram ao local no dia seguinte para ter acesso a mais detalhes sobre os fatos e os envolvidos e foram novamente agredidos. Dessa vez, eles chegaram a ser perseguidos e ameaçados também por um ex-policial militar.

Os jovens angolanos têm 27 e 28 anos. Um é engenheiro civil e o outro é estudante universitário. Em razão de novas ameaças ocorridas após o crime, as identidades serão preservadas a pedido do advogado.

“Até o momento, esse crime está sendo apurado na divisão de crimes de menor potencial ofensivo, mas as imagens falam por si. Não é uma simples agressão, uma briga comum. São agressões extremamente violentas, chutes, socos na cabeça, golpe ‘mata-leão’ no pescoço que pode desacordar pessoas, isso é extremamente perigoso. Fora os crimes de racismo. [...] Qual a justificativa ou a explicação para agredirem de forma tão brutal essas duas pessoas? Isso já é um indício de que houve ato de racismo”, afirmou.

A empresa publicou uma nota de esclarecimento na rede social em que alegou que o desentendimento teria começado quando um dos angolanos foi desautorizado a entrar no estabelecimento porque não utilizava a máscara de proteção. “Este partiu para um confronto físico com o segurança”, argumentou.

Segundo a empresa, um segurança e dois atendentes da cervejaria estão entre os envolvidos nos fatos. “Qualquer discurso de ódio em virtude de raça ou etnia praticado por funcionários de nosso estabelecimento não será tolerado.”

Trechos das imagens das câmeras de segurança também foram publicados na rede social, mas o momento em que os rapazes são arrastados para fora do estabelecimento foi cortado das cenas. Câmeras posicionadas do lado de fora mostram a aglomeração de jovens consumindo bebida alcoólica.

O advogado João Vitor Ritter, que defende os proprietários da cervejaria, garantiu que os representantes do estabelecimento estão colaborando com as autoridades e todas as imagens serão disponibilizadas na íntegra. As pessoas que estavam trabalhando no dia das agressões foram afastadas.

“Caso algum funcionário tenha passado algum limite, ele será responsabilizado. A empresa está tentando fazer de tudo para que a justiça seja feita. Nenhum funcionário tratou os rapazes de forma desrespeitosa”, defendeu o advogado. Ritter disse ainda que o segurança envolvido era "freelancer" e havia sido contratado para exercer a atividade apenas no último sábado, quando foram registradas as agressões.

O delegado Diego Almeida, responsável pelo caso, destacou que a Polícia Civil está ouvindo depoimentos dos envolvidos e deve coletar outras imagens das câmeras de segurança. “Pelas imagens já divulgadas fica claro que houve a agressão e, possivelmente, lesão corporal. Agora se foi de natureza leve ou grave isso será apurado a partir dos exames do IML [Instituto Médico-Legal]. Estamos verificando o que motivou as agressões, se foi uma questão de racismo ou não. Isso tudo será avaliado a partir do momento em que a gente ouvir todos os envolvidos nos fatos”, afirmou.

Para o advogado e presidente da Associação dos Estrangeiros Residentes na Região Metropolitana de Maringá, Ronelson Furtado Balde, os fatos não podem ser relativizados. “A gente que trabalha com estrangeiro vê claramente que há tratamentos diferentes para o estrangeiro branco e para o estrangeiro preto. A questão racial é muito forte, é muito presente em tudo. Nessa mobilização que a gente está fazendo, a gente quer mostrar que todos temos direitos e essa é uma luta tem que ser feita todos os dias”, concluiu.