São Paulo, 02 (AE) - A declaração do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Rui Cesar Melo, de que há muitas organizações não-governamentais (ONGs) interessadas em que não se resolva a questão do menor infrator, para não perderem a "grana violenta" que movimentam, causou indignação entre pessoas ligadas a entidades civis, jurídicas e políticos. Para o padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Menor, as afirmações são sérias e têm de ser provadas por Melo. "Cabe a ele o ônus da prova."
Padre Lancelotti disse que o comandante-geral reproduz a prática de responder a acusações com agressões. "Toda vez que alguém ataca a gloriosa PM é atacada de forma mais violenta." Ao contrário do que disse Melo, o padre não acredita que possa haver uma solução para questões sociais sem a participação de entidades da sociedade civil. "O Estado sem a participação das entidades é o Estado totalitário."
Melo fez as declarações depois de questionado sobre a ação da Tropa de Choque durante a rebelião no Complexo Imigrantes da Febem, na semana passada. Ele disse que, pelos relatos que recebeu, "não houve contato físico" entre policiais e internos. Padre Lancelotti afirmou que há provas, de acordo com relatos de internos, do contrário. "Nós vamos apresentar provas da agressão dos policiais colhidas pelo Ministério Público e não por ONGs."
Para o educador da Associação Beneficente Santa Fé, Francisco César Rodrigues, a declaração de Melo segue o rumo inverso da história e das próprias práticas do governo Covas, "que, desde o início, vem passando responsabilidade para as ONGs". "Esse é o caminho: um trabalho do governo associado ao das ONGs."
Rodrigues atua com crianças carentes da capital. "Pode haver instituições que usam o problema do menor em proveito próprio, mas são uma minoria." Para ele, Melo deveria ter-se informado melhor antes de dar declarações sobre o tema. "Essas acusações são infundadas."
Para o presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, o advogado Luiz Borges, as acusações do coronel são muito graves e devem ser investigadas. "Recebo isso como uma denúncia que precisa ser investigada." A associação propõe a redução da maioridade penal, que leva em conta estudo das características de cada jovem e da infração que cometeu. "Há muitas ONGs sérias, com trabalhos sérios."
Na opinião do deputado estadual Elói Pietá (PT), as afirmações de Melo "expressam o corporativismo da PM". "Eles partem dizendo que o culpado é quem acusa a polícia", disse. "Acho que a PM prestou um serviço importante, mas deve buscar a legalidade em suas ações." Para Pietá, as ONGs não desaparecem quando o Estado soluciona uma questão social, porque são parte da solução e de uma "nova ordem". "As ONGs são a manifestação moderna da democracia."

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