Entidade suspeita de sonegação de medicamento em hospitais do Rio
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quarta-feira, 27 de outubro de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 28 (AE) - Clínicas e hospitais do município do Rio credenciados ao Sistema Único de Saúde podem estar sonegando a injeção de imunoglobulina para mulheres com fator sanguíneo Rh negativo que tiveram filhos Rh positivo. A suspeita é da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio, que denunciou o caso ao Comitê de Mortalidade Materna e Perinatal da Secretaria Estadual de Saúde. Só nos dez primeiros meses desse ano o número de mulheres atendidas no hospital da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), especializado em gestação de alto risco, foi 24% maior que em todo o ano passado - 46 pacientes até outubro de 1999, contra 37 em 1998. "Cerca de 72% dos casos poderiam ter sido evitados", afirmou o chefe do departamento de obstetrícia do Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, Luiz Guilherme Pessoa.
As mulheres com fator Rh negativo mães de crianças Rh positivo precisam receber a imunoglobolina até 72 horas depois do parto. Se isso não acontece, na segunda gestação de feto Rh positivo o organismo materno produz anticorpos que matam as hemácias (responsáveis pelo transporte de oxigênio no sangue) do bebê. A criança pode morrer dentro do útero. Se sobreviver, há risco de sofrer de anemia e doenças neurológicas. "Em 46% dos casos grávidos, o bebê morre", afirma Pessoa.
O presidente da sociedade de Ginecologia e Obstetrícia, Ricardo Oliveira Silva, acredita que os hospitais e clínicas conveniados não estejam aplicando as injeções porque o SUS repassa R$ 46,00 por medicamento, quando o preço de mercado da imunoglobulina varia de R$ 80,00 a R$ 115,00. "A estimativa da Secretaria Estadual de Saúde é de que seriam necessários 10 mil frascos por ano, mas 1999 só foram aplicados 2.200", alertou Silva. "Se em dois meses conseguirmos dobrar esse número, nem metade das mães vai ter recebido o medicamento".
No ano passado, 27 recém-nascidos morreram por incompatibilidade de Rh e 220 sofreram transfusão total do sangue, segundo dados da Secretaria de Saúde. "Foi a segunda gravidez dessas mulheres, é um problema que vem de longe", ressaltou Silva, que se negou a dizer quais hospitais estariam sonegando a imunoglobulina. "Já nos reunimos com a secretaria e o que nós queremos é um SUS funcionando", afirmou o médico.
O secretário de Saúde, Gilson Cantarino, recusou-se a comentar o assunto. A representação do Ministério da Saúde, no Rio, informou por sua assessoria de imprensa que só pode tomar alguma medida - como interrupção no repasse de verba - se for feita denúncia formal, o que não ocorreu.


