Paulo San Martin
Especial para a Folha
A organização inglesa Survival (Sobrevivência) vai entregar esta semana ao embaixador brasileiro em Londres, Sérgio Amaral, um abaixo-assinado com cerca de 80 mil assinaturas pedindo uma intervenção de emergência do governo brasileiro para pôr fim à onda de suicídios e aos conflitos pela posse da terra que envolvem índios guaranis e kaiowás no Mato Grosso do Sul.
O documento é apenas parte de um abaixo-assinado bem maior, que circula em vários países do mundo, desde o final do ano passado, e que já conta com centenas de milhares de assinaturas. O abaixo-assinado completo estava programado para ser entregue ao governo brasileiro no final deste ano. Mas, na semana passada, diante do agravamento do conflito indígena no Mato Grosso do Sul, a Survival decidiu antecipar seus cronogramas e entregar ao embaixador brasileiro as 80 mil assinaturas que foram colhidas dentro da Inglaterra. O restante do abaixo-assinado continua a circular pelo mundo.
A Survival, organização com sede em Londres e escritórios nas principais capitais européias, age no mundo inteiro em defesa de causas indígenas. No final do ano passado, ela lançou campanha internacional pela demarcação das terras guaranis e kaiowás no Mato Grosso do Sul, que considera a única alternativa para pôr fim ao que chama de ‘‘genocídio em curso’’ contra as duas etnias.
‘‘Esta campanha é fundamental. O governo brasileiro só se mobiliza para resolver problemas indígenas sob pressão internacional’’, argumenta Nereu Schneider, coordenador regional do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) no Mato Grosso do Sul e um dos intermediários das negociações que envolvem a Survival e o governo brasileiro.
Conforme a Folha de Londrina/Folha do Paraná publicou na semana passada, cinco índios com idade entre 12 e 19 anos tentaram se matar ingerindo veneno. Dois morreram, um continua internado em estado de coma na UTI do Hospital Evangélico de Dourados, MS, e outro foi salvo. Nos dias seguintes, dez outros adolescentes guaranis e kaiowás se preparavam para participar de rituais de suicídio coletivo e foram impedidos a tempo pelos adultos da aldeia.
A aldeia de Panambizinho, 20 quilômetros de Dourados, onde estes fatos ocorreram, está sob intervenção da Polícia Federal para evitar novas tentativas de suicídio. Outros 85 índios, integrantes de um contingente de 300 guaranis e kaiowás que ocupam a Fazenda São Sebastião, no município de Sete Quedas, sul do Estado, ameaçam suicídio coletivo para forçar a demarcação de suas terras.
Estes acontecimentos se desenrolam num momento de tensão extrema do conflito pela terra que contrapõe brancos e índios no Mato Grosso do Sul. Nos últimos meses, contrariando seus métodos historicamente pacíficos, cerca de dois mil guaranis e kaiowás invadiram, e ocupam armados, fazendas em diferentes regiões do Estado. ‘‘Por isso a Survival decidiu tomar esta atitude de emergência para sensibilizar o governo brasileiro’’, revela Schneider. (Colaborou Alexandra Campos)

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