Agência Estado
Do Rio
Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras diz que o desastre na Baía de Guanabara pode interessar os defensores da privatização da empresa
O novo presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), Fernando Siqueira, não descarta a hipótese de sabotagem no vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo, do duto da Refinaria Duque de Caxias, na Baía de Guanabara, RJ, dia 18. ‘‘A supervalorização desse vazamento é muito conveniente a quem defende a privatização da Petrobras’’, disse Siqueira, que tomou posse ontem.
‘‘Sabemos que a empresa espanhola Repsol, que comprou a estatal petrolífera argentina, a YPF, negocia com a Petrobras, para adquirir seus ativos, entre eles a Reduc, a refinaria brasileira de maior valor de mercado’’, disse o engenheiro. Ele estranhou que o vazamento tenha ocorrido sem que ninguém ou nenhum equipamento da Reduc e do terminal da Ilha D’Água, ao qual estava destinado o óleo, tenha notado. ‘‘Como essa transferência é monitorada dos dois lados, é estranho que o óleo estivesse saindo do duto, durante quatro horas, sem chegar a seu destino e ninguém percebeu’’, explicou. ‘‘E há um equipamento destinado só a essa função.’’ Siqueira reconheceu que os aparelhos são antigos, mas não estão defasados.
Para ele, órgãos técnicos não ligados à Petrobras deveriam participar da investigação, que precisa ser minuciosa. ‘‘Por que a Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Crea e o Clube de Engenharia não estão colaborando?’
Para Siqueira, o vazamento não é mais prejudicial ao ecossistema da Baía de Guanabara do que os 400 mil litros de esgoto in natura jogados diariamente na área (300 mil de matéria orgânica e metal pesado e 64 mil de origem industrial, segundo ele). ‘‘Em três dias, a baía recebe 1,2 milhão de esgoto, a mesma quantidade de óleo que vazou da Reduc’’, comentou.
O superintendente da Reduc, Kuniyuki Terabe, disse ontem, em depoimento na Polícia Federal, que o vazamento foi descoberto às 5 horas, mas a unidade só constatou a gravidade do acidente às 9h45, depois de fazer um sobrevôo na área. ‘‘Se o rompimento tivesse sido detectado com uma antecedência maior, o dano causado ao meio ambiente teria proporções menores’’, disse ao delegado Ricardo Bechara. -
A responsabilidade pelo duto que se rompeu, informou Terabe, é da Dutos e Terminais do Sudeste (DTSE), unidade da Petrobras responsável pelo transporte do combustível. O controle da quantidade de óleo que sai da Reduc é feito em terminais da refinaria e o DTSE tem sistema semelhante para acusar a carga de óleo recebida. O sistema não é interligado e a comunicação entre as duas unidades é feita de duas em duas horas, por telefone.
O superintendente de Exploração e Produção da Petrobras, Rodolfo Landim, não acredita na possibilidade de sabotagem. ‘‘Os dados do estudo que está sendo realizado não levam à idéia de que houve qualquer tipo de sabotagem’’, disse. ‘‘Existe uma explicação técnica bem razoável’’, acrescentou.
Em ofício enviado ontem ao Ministério Público Federal, o presidente da Petrobras, Henri Phillipe Reichstul, formalizou sua disposição de assinar o termo de ajustamento de conduta, segundo o qual a empresa se compromete a entregar em 30 dias um laudo sobre a situação dos dutos que cruzam a Baía de Guanabara e apresentar em seis meses uma auditoria ambiental completa.

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