Entidade dá comida a viciados em crack
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quarta-feira, 08 de setembro de 1999
Por Rosa Bastos 
São Paulo, 09 (AE) - Em vez de fumar pedras, os viciados em crack, que vivem na região central da cidade, a famosa Cracolândia, hoje tiveram de consolar-se com fartas porções de comida.
Em jejum da droga que, segundo eles, "sumiu" há uma semana, devoravam "quentinhas" de feijão, arroz e carne doados por uma entidade assistencial. "Bateu o maior rango, meu", explica Médice Fernanda dos Santos, de 27 anos. "Crack já era."
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, o sumiço dos viciados da região de Santa Ifigênia, onde costumavam reunir-se para consumir a droga, deve ser um reflexo direto da guerra que o secretário Marco Vinício Petrelluzzi declarou ao tráfico. "Traficante também lê jornal, vê televisão", disse um assessor do secretário.
Para Médice, declaradamente viciada em crack, maconha e até em Benflogin, a abstinência da droga foi forçada. "A polícia não tem dado folga, chega a qualquer hora do dia ou da noite", conta. "E chega dando porrada." Ela reconhece que o crack "acaba com a vida" porque a pessoa perde a fome e fica "só na nóia", ou seja, querendo mais e mais droga. Irônica, exibe o prato de comida e os bíceps trabalhados. "Agora, aqui só rola geração saúde!"
Elidilse Pereira dos Santos, de 40 anos, mostra uma cicatriz no pescoço, de acordo com ela, ganha numa batida policial. "Ele queria tomar o meu cachimbo e eu não dei", diz. "Então acendeu o isqueiro, queria queimar minha cara, desviei." Isso foi há quatro meses, perto da Estação da Luz. Elidilse ficou 3 anos e 50 dias presa por causa de crack e voltou a fumar assim que saiu da cadeia.
"Tive de assinar um 12 (prisão por tráfico), mas depois caiu para 16 (vício)", lembra. "Passei na psicóloga e o juiz viu que eu não tinha como ser traficante." Mas garante que há um mês não sente o cheiro da droga.
Agressões - Patrick, um rapaz de 19 anos, e 12 de rua, ex-interno da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), cheio de colares de ouro falso e com um gorro do São Paulo, mostra o pulso machucado. "Foram eles!", acusa, dizendo que foi "vítima" de uma operação pente-fino da polícia. "Faz uma cara que a droga acabou, mas eles continuam batendo", conta. "Ninguém tem mais nada em lugar nenhum."
Elisete Bezerra de Souza, de 22 anos, também tem as costas "moídas", segundo ela, "de tanto levar pancada da polícia". "Metem o pau na gente, querem saber onde tem droga, dizem para a gente sumir daqui, limpar a área, seja véio ou novo", comenta. "Limpar como, se não tem vassoura?"
Dormem ali, num pequeno vão sob a passarela da Rua Brigadeiro Tobias, em frente da Estação da Luz e a poucos metros da Delegacia de Narcóticos. "A gente está dormindo e arrastam pelos pés", conta Patrick. Maria Aparecida de Souza, miudinha em seus 20 e poucos anos, rosto marcado por espinhas, também fala, gemendo, das "cacetadas" que levou. Afastada dos outros, segreda: "Agora não tem, mas vai rolar mais tarde", explica. "Pouco, mas rola."


