Enterro de Maria Rita é acompanhado por 3 mil pessoas
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segunda-feira, 20 de dezembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 20 (AE) - Entre 2 mil e 3 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, foram hoje à tarde ao Cemitério de Vila Mariana, na Rua Lacerda Franco, zona sul de São Paulo, para acompanhar o enterro da mulher do cantor e compositor Roberto Carlos, Maria Rita Simões Braga. Ela morreu às 23 horas de ontem (19), em consequência de um carcinoma (tumor maligno constituído por células epiteliais, que se alastrou pelo seu corpo), segundo o médico José Henrique Germann Ferreira.
A multidão aplaudiu a chegada do cantor ao cemitério, por volta das 16 horas. "Eu toquei nele e disse: Deus o abençoe", disse a dona de casa Ilá da Guia Lobo, uma das muitas pessoas que se acotovelaram na rua central do cemitério para ver o músico. Roberto Carlos chegou vestindo calça e camisa jeans com colete, no banco da frente de um Versailles. Só esboçou um sorriso ao ser aplaudido pela multidão. Mas não disse nada.
A cerimônia de adeus durou apenas dez minutos. Mas Roberto Carlos, quando estava no carro saindo do cemitério, fez algo inusitado: voltou e pediu para reabrir o caixão de Maria Rita. Segundo o padre Jorge Luiz Neves Pereira, o "Jorjão", ele abraçou o corpo da mulher e rezou demoradamente. "Ele voltou para se despedir mais uma vez", disse o padre. Segundo familiares, ele voltou porque se teria esquecido de deixar uma medalha junto ao corpo - seria a medalha que o papa João Paulo II abençoou quando da última visita ao País.
O enterro foi tumultuado. Helicópteros sobrevoaram o cemitério todo o tempo e cerca de 300 homens - 80 seguranças particulares, mais 120 policiais metropolitanos e 60 PMs - fizeram cordões de isolamento para impedir o acesso ao cantor. Maria Rita foi enterrada no jazigo da Vila Mariana (família Valdissera), por desejo do pai dela, segundo a Assessoria de Imprensa de Roberto Carlos.
Muitas personalidades foram ao cemitério, mas os mais assediados eram os padres-cantores - Marcelo Rossi, "Jorjão" e Antônio Maria. "Eu achei muito injusto isso, muito cruel, com um homem de fé como ele", disse o apresentador e cantor Ronnie Von, do programa "Mãe de Gravata", da TV Gazeta, CNT, velho amigo do cantor desde os tempos da Jovem Guarda. "Eu, que também me considero um homem de fé, me considero balançado; não que tenha perdido a credibilidade."
O prefeito Celso Pitta (PTN) esteve no velório da mulher do cantor. "Vim aqui para prestar solidariedade em nome do povo de São Paulo", afirmou o prefeito. O empresário Antonio Ermírio de Moraes, dono do Grupo Votorantim, se disse "surpreso" com o equilíbrio e a calma que Roberto Carlos demonstrava, apesar do abatimento. "Roberto e a família estão dando um exemplo de fé e ética para o Brasil", disse o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB), outro que esteve no velório.
Maria Dulce do Nascimento Bodelon, de 52 anos, fez novena durante 19 dias pela mulher do cantor e, hoje, rezou um terço durante 40 minutos na frente do Hospital Israelita Albert Einstein, no Morumbi, zona sul, no local onde Maria Rita era velada. "Estou fazendo essa oração muito mais para ele porque ela eu sei que está em boas mãos", disse a pernambucana. Ela contou que viu Roberto Carlos pela primeira vez em 1969, passeando na Avenida Paulista com o parceiro Erasmo Carlos.
Maria Rita tinha 38 anos e estava legalmente casada com Roberto Carlos havia três anos. Foi internada pela segunda vez no Einstein em estado crítico, no dia 24. Há alguns dias, foi desenganada pelos médicos. Segundo o padre Antônio Maria, que esteve com Maria Rita pouco antes da morte dela, a mulher de Roberto Carlos recebeu a unção às 9h30 da noite de ontem, e não estava mais consciente. O padre diz que conformou Roberto Carlos: "Coragem, meu filho." O cantor respondeu-lhe: "Eu não desanimo."
Uma das amigas mais próximas de Maria Rita em São Paulo, Maricy Trussardi, disse hoje que compôs uma música para a mulher do cantor, a pedido da própria. Uma das filhas dela cantou a música hoje no velório. Entre outras pessoas, estiveram lá os humoristas Chico Anísio e Tom Cavalcanti e a apresentadora Hebe Camargo, do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). "Roberto nem dormiu essa noite para ficar aproveitando os momentos de lucidez dela", disse Hebe, que enviou coroas de flores e uma vela gigante com a imagem de Nossa Senhora ao hospital.
Durante o velório, Roberto Carlos cantou duas músicas: Ave Maria, uma composição do padre Antônio Maria, e Nossa Senhora, dele mesmo. Segundo Hebe, ele estava bem calmo e só tomou chá. Aos que o cumprimentavam, ele apenas dizia: "Deus o abençoe."
Durante o enterro, Roberto Carlos não falou nada. Manteve-se ao lado do caixão, ajoelhado, e alguns seguranças puseram os casacos para tapar a visão da multidão para que a despedida do cantor não fosse vista. "Roberto está com uma força muito grande, uma força que vem da fé", disse o padre Antônio. Segundo ele, o cantor jamais questionou Deus pela perda. "Ele nunca disse Por quê?", assinalou o padre. "Ele sabe que Rita fez o caminho de volta para a casa do Pai", afirmou.


