Enterrado no Rio, o corpo
de João Cabral de Melo Neto
Agência Estado
Do Rio
DespedidaViúva de João Cabral, Marly, dá adeus a um dos maiores poetas contemporâneos do BrasilEm uma cerimônia simples e discreta foi enterrado, ontem à tarde, no Mausoléu dos Imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Cemitério São João Batista, no Rio, o corpo de um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros: João Cabral de Melo Neto. Cerca de cem pessoas, entre parentes e amigos, acompanharam o sepultamento. O poeta morreu na manhã de sábado, de parada cardíaca, em sua casa, na Praia do Flamengo, zona sul do Rio, enquanto rezava de mãos dadas com a mulher, Marly de Oliveira.
‘‘Ele era, antes de tudo, um grande humanista, sua poesia era impregnada de aspectos sociais’’, discursou o vice-presidente da República, Marco Maciel, que compareceu ao enterro representando o presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Sua poesia era telúrica e pernambucana, mas também universal e ecumênica’’, disse Maciel que, como o poeta, também nasceu em Pernambuco. Na avaliação do vice-presidente, a morte de João Cabral trará para sua obra um reconhecimento maior do que teve em vida. ‘‘Isso acontece com os grandes escritores’’, disse.
‘‘Morreu a única possibilidade de o Brasil conquistar o Nobel de Literatura’’, resumiu o pesquisador de música Ricardo Cravo Albin. Segundo o presidente da ABL, Arnaldo Niskier, a Academia Sueca havia pedido à Academia Brasileira por cinco anos consecutivos uma indicação de autor nacional para o Nobel. ‘‘Nas cinco vezes, o nome indicado por nós foi o de João Cabral’’, contou. Para o também poeta Ferreira Gullar, a qualidade da obra de João Cabral é incomparável. ‘‘É um poeta de importância mundial’’, afirmou.
O editor Carlos Augusto Lacerda, da Nova Fronteira, disse ontem não ter conhecimento de trabalhos inéditos do poeta que ainda possam ser publicados. ‘‘Tudo o que ele quis, publicou em vida’’, afirmou. ‘‘Não se deve alimentar expectativa em torno de inéditos’’. Ele admitiu, no entanto, que possa haver ainda algum trabalho inédito da série de tipografias e textos de crítica literária que fez em parceria com o pintor espanhol Juan Miró, entre as décadas de 40 e 60.
O corpo de João Cabral foi velado na Sala dos Poetas Românticos, na sede da ABL. Uma missa de corpo presente foi rezada pelo padre Fernando Bastos de Ávila, também imortal. Duas de suas filhas, Inez e Isabel, leram orações em intenção da alma do pai e o presidente da ABL fez um discurso em sua homenagem. No cemitério, foi a vez de o vice-presidente da República e do secretário estadual de Educação de Pernambuco, Éfrem Maranhão, discursarem. Em homenagem ao Estado onde nasceu, João Cabral foi enterrado com a bandeira de Pernambuco.
Seus cinco filhos, Inez, Luis, Isabel, João e Rodrigo, estiveram presentes. Sua segunda mulher, Marly de Oliveira, não estava se sentindo bem e preferiu não ir ao enterro. ‘‘Ele teve uma morte muito tranquila’’, limitou-se a dizer.
O governo de Pernambuco decretou luto oficial por 8 dias pela morte do poeta. O prefeito do Recife, Roberto Magalhães (PFL), também decretou luto oficial na cidade, por três dias. Ele afirmou que João Cabral foi o poeta que cantou o Recife e o Rio Capibaribe – que corta a cidade – da forma mais bela, em seu poema ‘‘Cão sem plumas’’.
João Cabral nasceu em 9 de janeiro de 1920 e passou os primeiros dez anos de vida em engenhos de açúcar, depois passou a estudar na capital, no Colégio Marista. Seu primeiro livro, ‘‘Pedra do Sono’’, foi publicado em 1942.

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