Ensino superior tem que estar voltado ao desenvolvimento do País
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quarta-feira, 07 de março de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Pensar a universidade no Brasil sem elaborar uma estratégia de desenvolvimento nacional, sem a criação de políticas públicas e sem que ocorra um debate mais amplo que envolva todos os setores do ensino superior torna inviável a construção de uma educação superior adequada para o que se pretende para o futuro do País. Essa discussão foi levantada na 11ª edição do EncontrosFolha, realizada na última segunda-feira (5), e que teve como tema "A Educação como Elemento Transformador da Sociedade".
Diretor do Núcleo de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Positivo, Roberto Di Benedetto observa que a falta de planejamento de políticas públicas direcionadas a promover um ensino superior alinhado com a construção de um país que retome a rota do desenvolvimento não é só responsabilidade do governo, mas também das IES (Instituições de Ensino Superior). "É preciso tentar olhar a educação superior como um caminho para discutir política pública para o desenvolvimento", disse ele, que foi um dos painelistas convidados para o evento.
Di Benedetto vê a educação superior como um agente de redução ou de agravamento de desigualdades e utiliza dados do MEC (Ministério da Educação e Cultura) e do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) para alertar que o recorte dos cursos com maior número de matrículas no País aponta para um futuro que não está focado na produtividade e no desenvolvimento tecnológico.

Os dados mais recentes, de 2016, mostram que o Brasil tem hoje 2.407 IES, sendo 2.111 universidades privadas e 296 instituições públicas, totalizando oito milhões de matrículas. A maioria dos alunos, seis milhões deles, estão matriculados em universidades privadas e apenas dois milhões em instituições estaduais ou federais. Em 2001, eram dois milhões de matrículas em instituições particulares e um milhão nas públicas, revelando que o crescimento da educação superior brasileira é lastreado pela rede privada. No Paraná, a tendência se confirma. São 187 IES no total, divididas em 176 particulares e 13 públicas. "Você tem um crescimento extremamente desigual entre as instituições públicas e privadas, agravando as desigualdades."
Quando se analisa os cursos existentes, o quadro que se desenha chama atenção para dois pontos. Os bacharelados dominam o cenário, deixando para trás as licenciaturas e os CST (Curso Superior de Tecnologia); e entre os 34.366 cursos de graduação ofertados pelas IES em 2016, direito, administração de empresas e pedagogia despontam como os campeões em número de graduandos (veja infográfico nesta página). "Se a gente olha para a universidade no Brasil, a gente consegue ter uma perspectiva de qual futuro esse país vai ter e aí a política pública da universidade tem que estar vinculada à política pública de desenvolvimento", defende Di Benedetto. "Os CSTs, que foram pensados para serem cursos conectados ao mercado de trabalho e que formam profissionais capacitados para desempenhar uma atividade no setor produtivo não apresentam um crescimento sensível. O desenho do curso que eu oferto é o desenho daquilo que eu quero para o País?", questiona.

Reitora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Berenice Quinzani Jordão reconhece as dificuldades das universidades púbicas em estabelecer parcerias com a sociedade e destaca que a sociedade também tem dificuldade de buscar no interior da universidade as respostas de que ela precisa para a resolução de seus problemas. "Este diálogo deve ser uma via de mão dupla porque a universidade também aprende quando chega até essa comunidade", ressaltou Jordão, uma das painelistas convidadas pelo EncontrosFolha. "A sociedade como um todo tem que compreender que é um investimento que ela faz dentro da universidade para que a universidade compreenda o conjunto de demandas e transforme isso em um conhecimento que vai oferecer uma resposta, mas com um avanço social mais a médio prazo. A sociedade tem que depositar na universidade pública a confiança de que é lá na universidade que há um ambiente necessário e suficiente para que haja essa transformação do saber e a oferta de novos avanços humanos e sociais."
Di Benedetto lembra ainda que falta ao setor produtivo disposição para investir em ciência e tecnologia dentro das instituições de ensino superior. "Se você não responder a pergunta 'que país eu quero', você não vai responder a pergunta de que universidade eu quero. E esse sistema universitário nosso é muito complicado, pouco coeso, pouco planejado e com desigualdades absurdas."

"Eu tenho a impressão de que muitas indústrias ou empresas não procuram as universidades para essa parceria em função de alguns entraves e morosidade. Acredito que aconteçam muitas burocracias e muitos engessamentos, então tem algumas empresas que preferem investir em outros meios de uma forma diferente e não buscam uma universidade", afirmou o engenheiro civil especialista em gestão escolar e professor convidado no Isae/FGV, José Motta Filho, que também participou como painelista no EncontrosFolha.
Para a reitora da UEL, a questão do papel da universidade no desenvolvimento social não se trata "apenas de um diálogo entre a empresa e a universidade". "É todo um conjunto, um sistema, estimulado dentro dos diferentes órgãos que são reguladores e fiscalizadores do trabalho social e da universidade, que não estão fazendo a articulação necessária para que se tenha um ambiente propício para que isso aconteça."







