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EDUCAÇÃO -

Ensino remoto na pandemia: o desafio de manter a qualidade

Índice criado pela Rede de Pesquisa Solidária para avaliar as aulas remotas traz dados de todo o País; no Paraná, a aposta agora é nas aulas presenciais

Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

 

O Paraná está entre os estados mais bem avaliados no contexto das aulas remotas durante a pandemia, mas a qualidade do ensino ainda é uma preocupação
O Paraná está entre os estados mais bem avaliados no contexto das aulas remotas durante a pandemia, mas a qualidade do ensino ainda é uma preocupação | iStock
 


Com a pandemia do coronavírus, secretarias de educação precisaram correr para se adaptar para oferecer aulas pela internet, pela TV, por aplicativos, por mensagens e por redes sociais para manter o distanciamento social. Para avaliar tudo isso foi formada a Rede de Pesquisa Solidária, organização não governamental que visa aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que atuam em meio à crise da pandemia para salvar vidas. Essa instituição criou o  Iead (Índice de Ensino à Distância) para avaliar políticas adotadas para diversificar meios de transmissão de conteúdos didáticos, facilitar o acesso a aulas remotas, supervisionar os estudantes e ampliar a cobertura do atendimento.


Desde outubro do ano passado, quando a avaliação começou, a nota média alcançada pelos estados saltou de 2,7 para 5,2. As melhores notas foram alcançadas por Paraíba, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. O que mais contribuiu para a melhora foi a definição de medidas para ampliar o acesso de alunos e professores às aulas remotas, incluindo a distribuição de apostilas impressas, chips de telefone celular e computadores, e a oferta de subsídios para pagar os serviços de conexão à internet.


"O rigor no tratamento e a precisão dos dados é essencial para o nosso trabalho, guiados que somos pela transparência e a ética da pesquisa. Foi o que nos levou a tomar distância das soluções mágicas e das opiniões infundadas", diz a apresentação no site da Rede. 


Na avaliação do grupo, parte do problema está na ausência de esforços do Ministério da Educação para coordenar as ações dos governos locais. "O governo federal poderia ter sido proativo para orientar estados e municípios e incentivar o uso eficiente dos recursos, mas se omitiu", afirma a cientista política Lorena Barberia, da USP (Universidade de São Paulo), coordenadora do grupo.


"Precisamente por isso, colocamos nossas energias e dedicação no levantamento criterioso de dados, na geração de informação de qualidade, na criação de indicadores, na elaboração de modelagens matemáticas e estatísticas para acompanhar, indicar gargalos e identificar o que pode ser melhorado nas políticas públicas e nas respostas que a população pode e tem dado" , diz o texto da Rede.


O Paraná melhorou a nota do Iead de 4,57 para 7,78, mas a qualidade do ensino ainda preocupa a Seed (Secretaria de Estado da Educação e do Esporte). Educadores consideram que o item não foi contemplado nos critérios da pesquisa da Rede de Pesquisa Solidária, que criou o indicador para avaliar políticas adotadas para diversificar meios de transmissão de conteúdos didáticos, facilitar o acesso a aulas remotas, supervisionar os estudantes e ampliar a cobertura do atendimento. Os pesquisadores analisaram documentos e atribuíram aos programas dos 26 estados e do Distrito Federal notas que variam de 0 a 10. 

 

Pesquisas do IBGE apontam que, no entanto, 34,5 milhões a 35,7 milhões da população não possui acesso à internet em banda larga ou 3G/4G em seu domicílio, o que representa 17% do total.  Para o diretor de Educação da Seed, Roni Miranda Vieira, a Rede de Pesquisa Solidária não entrou em contato com os alunos e com os pais dos alunos para realizar a pesquisa.


“Eu poderia me calcar nessa melhoria do índice no Paraná e surfar nessa onda, mas eu estou sendo coerente, porque não é um método que nós observamos de trabalho para avaliar se os nossos estudantes estão tendo acesso ou não”, destacou.


A Seed aponta que não está trabalhando mais com essa possibilidade do ensino remoto. “No segundo semestre a gente já está com a nossa prioridade de ter o aluno na escola, pois já se passou mais de um ano com os estudantes fora da escola e a situação da aprendizagem dos nossos estudantes do Paraná está comprometida”, declarou. “A gente disponibilizou três canais de TV, um aplicativo, que é o Aula Paraná, com isenção de dados para os estudantes e professores acessarem as aulas no celular e disponibilizamos as aulas no YouTube. Além disso, disponibilizamos material impresso. Então o Paraná adotou várias ferramentas para atender e a gente conseguiu um alcance em torno de quase 99% dos estudantes, mas alcançar não significa que a gente vai ter qualidade neste ensino”, destacou.


175 cidades do PR não tiveram acesso ao sinal de TV

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato), os números do próprio governo podem servir para avaliar qualitativamente o modelo e a relação custo-benefício: 1.024.572 matrículas, 205.448 em atividades impressas, 189.415 atividades pelo Classroom e 38.751 sem atendimento pedagógico. Dos 399 municípios do PR, 175 não recebem o sinal da emissora de TV contratada. 


De acordo com o presidente da APP-Sindicato, Hermes Leão, no Paraná não houve um apoio direto no fornecimento de tecnologias aos professores e para os estudantes. “Foi uma imposição. Quando nós questionamos a utilização dos equipamentos próprios por parte de professores, o governo colocou uma verdadeira chantagem de que os professores que não quisessem utilizar os seus equipamentos ou que não tivessem equipamentos adequados deveriam ir para a escola para fazer o trabalho remoto”, destacou Leão.


"Há um esforço maior para aprimorar os programas de ensino a distância, oferecendo uma alternativa às famílias que ainda não se sentem seguras com as condições para retomada das aulas presenciais", afirma a cientista política Lorena Barberia, da Universidade de São Paulo, coordenadora do grupo.


Os pesquisadores da Rede de Pesquisa Solidária calculam que os gastos dos estados com educação caíram 9% no ano passado. O governo federal repassou bilhões de reais para compensar perdas causadas pela crise econômica na pandemia, mas a falta de coordenação levou os estados a reter boa parte dos recursos no caixa.


Era esperado que os gastos caíssem com as escolas fechadas, mas os estados poderiam ter aproveitado parte dos recursos disponíveis para ampliar a oferta de ensino remoto, reformar as escolas e investir na infraestrutura necessária para retomar as atividades presenciais, afirmam os pesquisadores. (Com Folhapress)

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