Curitiba - A valorização cultural dos povos indígenas é o grande desafio da Ação da Educação Escolar Indígena, que começou ontem em Curitiba. Os dois primeiros módulos, de um total de dez, vão trabalhar especificamente a fundamentação do currículo. Nas outras etapas, serão abordadas todas as áreas de conhecimento, inclusive o ensino bilingue, e as questões de planejamento e aprendizagem.
Cerca de 150 professores indígenas de todo Paraná estão participando do seminário, além 17 secretários municipais, consultores do Ministério da Educação e Cultura (MEC), funcionários de municípios com reservas indígenas e representantes dos núcleos regionais de ensino e da Fundação Nacional do Índio.
Segundo a consultora do MEC, Clélia Neri Cortes, o seminário tem como principal objetivo ''sensibilizar os órgãos públicos sobre a importância de dar uma formação específica, diferenciada e intercultural aos professores indígenas''. Ela diz que o novo enfoque da política nacional para a educação indígena é de reconhecer a diferença e valorizar sua cultura. ''Toda sociedade passa por transformações. Não é porque o índio veste roupa de branco, que vai deixar de ser índio'', argumenta.
Para os professores indígenas, a preservação da cultura é a grande preocupação. João Joetavy, de 36 anos, é professor há dois anos na reserva Tecoa Anite, que reúne 30 famílias guaranis em Diamante do Oeste, região de Cascavel. João foi escolhido pela própria comunidade para lecionar. Ele, que estudou até a 5 série fora da reserva porque não havia escola, diz que as escolas indígenas são fundamentais para não perder a língua e a cultura guarani. Em sua reserva, a cultura guarani ainda é muito presente como a dança dos pajés, os casamentos, orações e remédios naturais.
Já Mauro Sampaio, 26 anos, que começou a dar aulas há apenas dois meses na reserva Jaguayguya, em Santa Amélia, no Norte Pioneiro do Estado, lamenta as perdas culturais em sua comunidade. Segundo ele, o idioma guarani já estava quase esquecido, assim como a cultura e religião vinham sendo abandonados. ''Se eu saísse de lá, acho que acabava'', diz o professor e único pajé da reserva, que tem 49 famílias. Muitas famílias se tornaram evangélicas e o pajé espera recuperar através das crianças, na escola indígena, a religiosidade indígena. ''Para eles, nossos rituais se tornaram uma ofensa, e para nós essa evasão também é uma ofensa'', lamenta.
O Paraná tem 27 escolas indígenas e cerca de 3 mil alunos das tribos Guarani e Caingangue matriculados em turmas de 1 a 4 séries e de 5 a 8. O Estado tem 17 reservas indígenas, com uma população de 12 mil índios. Três mil são guaranis e 9 mil caingangues, o maior grupo do Brasil. O seminário promovido pela Secretaria Estadual da Educação e o Ministério da Educação vai até quinta-feira.

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