Matemática não é para mim”, desabafa em voz alta e sem constrangimento a aluna do ensino médio do IFPR (Instituto Federal do Paraná) em Londrina. A adolescente, que antes frequentava a rede estadual de ensino, iniciou neste ano as atividades na instituição e se juntou a um grupo de estudantes que participa de um projeto com o objetivo de estimular a compreensão e o interesse pela disciplina. Desmistificar a matemática e fazer com que os alunos apliquem com facilidade os cálculos no dia a dia estão entre os desafios enfrentados pelos professores em todo o País.

Professor de matemática do IFPR, Filipe Hasche, em projeto de matemática básica com alunos do ensino médio
Professor de matemática do IFPR, Filipe Hasche, em projeto de matemática básica com alunos do ensino médio | Foto: Saulo Ohara

Dados divulgados pelo movimento Todos pela Educação revelam que, em 2017, apenas 9% dos estudantes da 3ª série do ensino médio apresentaram nível de aprendizado adequado ao ano da frequência escolar. O levantamento foi realizado com base em informações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Os resultados incluem alunos das redes pública e privada. No 9º ano do ensino fundamental, apenas 22% dos estudantes apresentaram nível de aprendizado adequado. Já no 5º ano do ensino fundamental, a porcentagem de alunos que compreendeu os conteúdos necessários foi de 49%.

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No Paraná, a média de aprendizagem da disciplina entre alunos do 5º ano do ensino fundamental foi a maior do País e chegou a 65% em 2017. No 9º ano, o índice foi de 26%. Já na 3ª série do ensino médio, apenas 11% dos estudantes compreenderam os conteúdos.

No IFPR em Londrina, três professores de matemática se uniram para debater estratégias em sala de aula e aprimorar projetos conduzidos no contraturno escolar. Grande parte dos estudantes que ingressa no instituto federal para iniciar o ensino médio técnico concluiu o fundamental na rede pública de ensino.

A professora Katia Bertolazi explica que a primeira etapa no contato com os estudantes é obter um diagnóstico sobre a percepção deles em relação à disciplina. “Nós perguntamos, por exemplo, como eles se sentem nas aulas de matemática, como se sentem quando aprendem matemática e quais são as principais dificuldades. Alguns já nos relataram que passaram por nove substituições de professores no período de um ano. Isso compromete a criação de um vínculo e o aprendizado”, avalia Bertolazi.

Os docentes do IFPR, Filipe Hasche e Ângela Passos, também ressaltam a necessidade de resgatar a autoestima dos alunos, estimular o gosto pelo aprendizado, contextualizar os conteúdos no dia a dia e incentivar a autonomia em sala de aula. Os dois realizaram uma pesquisa relacionada às questões do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para identificar os erros dos alunos e trabalhar os conteúdos de forma diferenciada. Os projetos desenvolvidos na instituição priorizam o conhecimento em matemática básica e a participação em concursos nacionais e internacionais de olimpíadas de matemática.

CONDIÇÕES DE TRABALHO

O grupo, que já lecionou na rede estadual do Paraná e do Rio de Janeiro, também aponta as condições de trabalho na instituição federal como diferenciais para a dedicação ao ensino. “Na rede estadual, de uma forma geral, falta carga horária para que os professores desenvolvam pesquisas e projetos de extensão com os alunos”, afirma Hasche. “Além da diferença na remuneração, temos também dedicação exclusiva e trabalhamos em apenas uma escola. Isso facilita conhecer as dificuldades de cada estudante. Nossa carga horária é de 40 horas semanais, sendo 16 horas para projetos de pesquisa e extensão, 4 horas para o atendimento aos estudantes, 4 horas para a preparação das atividades ou manutenção de ensino e 16 horas em sala de aula”, destaca Bertolazi.

Ao contrário da estudante citada no início da reportagem e que ainda estava se ambientando aos cálculos, Luana Garla, 15, já comemora o entendimento da disciplina após participar do projeto de matemática básica. “Aqui o professor explica todo o processo. Tinha ficado um vazio em parte dos conteúdos. Eu já gostava de matemática antes, mas não conseguia entender alguns assuntos”, confessa.

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