Ensino da matemática: o desafio dentro e fora das salas de aulas
Iniciativas buscam reverter cenário de incompreensão da disciplina; falta de investimentos e de valorização profissional também comprometem o aprendizado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de maio de 2019
Iniciativas buscam reverter cenário de incompreensão da disciplina; falta de investimentos e de valorização profissional também comprometem o aprendizado
Viviani Costa - Grupo Folha 
“Matemática não é para mim”, desabafa em voz alta e sem constrangimento a aluna do ensino médio do IFPR (Instituto Federal do Paraná) em Londrina. A adolescente, que antes frequentava a rede estadual de ensino, iniciou neste ano as atividades na instituição e se juntou a um grupo de estudantes que participa de um projeto com o objetivo de estimular a compreensão e o interesse pela disciplina. Desmistificar a matemática e fazer com que os alunos apliquem com facilidade os cálculos no dia a dia estão entre os desafios enfrentados pelos professores em todo o País.

Dados divulgados pelo movimento Todos pela Educação revelam que, em 2017, apenas 9% dos estudantes da 3ª série do ensino médio apresentaram nível de aprendizado adequado ao ano da frequência escolar. O levantamento foi realizado com base em informações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Os resultados incluem alunos das redes pública e privada. No 9º ano do ensino fundamental, apenas 22% dos estudantes apresentaram nível de aprendizado adequado. Já no 5º ano do ensino fundamental, a porcentagem de alunos que compreendeu os conteúdos necessários foi de 49%.
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No Paraná, a média de aprendizagem da disciplina entre alunos do 5º ano do ensino fundamental foi a maior do País e chegou a 65% em 2017. No 9º ano, o índice foi de 26%. Já na 3ª série do ensino médio, apenas 11% dos estudantes compreenderam os conteúdos.
No IFPR em Londrina, três professores de matemática se uniram para debater estratégias em sala de aula e aprimorar projetos conduzidos no contraturno escolar. Grande parte dos estudantes que ingressa no instituto federal para iniciar o ensino médio técnico concluiu o fundamental na rede pública de ensino.
A professora Katia Bertolazi explica que a primeira etapa no contato com os estudantes é obter um diagnóstico sobre a percepção deles em relação à disciplina. “Nós perguntamos, por exemplo, como eles se sentem nas aulas de matemática, como se sentem quando aprendem matemática e quais são as principais dificuldades. Alguns já nos relataram que passaram por nove substituições de professores no período de um ano. Isso compromete a criação de um vínculo e o aprendizado”, avalia Bertolazi.
Os docentes do IFPR, Filipe Hasche e Ângela Passos, também ressaltam a necessidade de resgatar a autoestima dos alunos, estimular o gosto pelo aprendizado, contextualizar os conteúdos no dia a dia e incentivar a autonomia em sala de aula. Os dois realizaram uma pesquisa relacionada às questões do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para identificar os erros dos alunos e trabalhar os conteúdos de forma diferenciada. Os projetos desenvolvidos na instituição priorizam o conhecimento em matemática básica e a participação em concursos nacionais e internacionais de olimpíadas de matemática.
CONDIÇÕES DE TRABALHO
O grupo, que já lecionou na rede estadual do Paraná e do Rio de Janeiro, também aponta as condições de trabalho na instituição federal como diferenciais para a dedicação ao ensino. “Na rede estadual, de uma forma geral, falta carga horária para que os professores desenvolvam pesquisas e projetos de extensão com os alunos”, afirma Hasche. “Além da diferença na remuneração, temos também dedicação exclusiva e trabalhamos em apenas uma escola. Isso facilita conhecer as dificuldades de cada estudante. Nossa carga horária é de 40 horas semanais, sendo 16 horas para projetos de pesquisa e extensão, 4 horas para o atendimento aos estudantes, 4 horas para a preparação das atividades ou manutenção de ensino e 16 horas em sala de aula”, destaca Bertolazi.
Ao contrário da estudante citada no início da reportagem e que ainda estava se ambientando aos cálculos, Luana Garla, 15, já comemora o entendimento da disciplina após participar do projeto de matemática básica. “Aqui o professor explica todo o processo. Tinha ficado um vazio em parte dos conteúdos. Eu já gostava de matemática antes, mas não conseguia entender alguns assuntos”, confessa.


