Quase dez anos após a promulgação da lei que leva o seu nome, em 2006, a farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, 70, se diz realizada por contribuir para a mudança de mentalidade de muitas pessoas em relação ao machismo e à persistência da violência doméstica. Por outro lado, conta que precisou abrir mão de sua vida pessoal em razão da luta. A cearense conversou com a imprensa antes do início da I Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência, que começou ontem em Curitiba e segue até amanhã.

"Realmente eu não posso ir ao supermercado, não posso ir ao shopping, porque o assédio é grande. Sei que enquanto as mulheres me amam, muitos homens me odeiam. Não posso também me expor porque é um cuidado muito grande que as pessoas da minha família e dos movimentos têm comigo. A gente não sabe o que passa na cabeça de um homem revoltado, que foi preso por uma lei que leva o meu nome", afirmou.

Imagem ilustrativa da imagem 'Enquanto as mulheres me amam, muitos homens me odeiam'
| Foto: Theo Marques



Apesar de enfatizar o aumento no número de denúncias de agressão, ela disse que a incidência de feminicídios, que são os assassinatos motivados por gênero, ainda preocupa. Em março de 2015, essa modalidade de homicídio passou a ser considerada crime hediondo. Conforme o Mapa da Violência, publicado no início deste mês pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais, em 33 anos mais de 106 mil mulheres foram mortas no País. Os 4.762 óbitos registrados em 2013, último período analisado, representam uma média de 13 por dia e uma taxa de 4,8 para cada 100 mil habitantes. 

SENSIBILIZAÇÃO

"Naquele município onde existem políticas públicas, as mulheres estão acreditando nas instituições e denunciando mais. Agora, quando não existe, ela não tem onde procurar ajuda ou denuncia e nada acontece", avaliou. Segundo Maria da Penha, outra questão que deve ser trabalhada pelo poder público e pela sociedade em geral é a educação. "Educação é o que leva a transformação de uma cultura. Quando houve a condenação do Brasil pela OEA (Organização dos Estados Americanos), uma das recomendações de se fazer a mudança legislativa foi investir no ensino em todos os níveis, para que a criança já naturalize o respeito à mulher", lembrou.

A condenação, por parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, em 1998, foi motivada justamente pela biografia da farmacêutica. Em maio de 1983, ela levou um tiro nas costas de seu então marido, Marco Antonio Heredia Viveros, enquanto dormia, ficando paraplégica. O ex-companheiro por duas vezes foi julgado e condenado, mas saiu em liberdade devido a recursos impetrados por seus advogados de defesa. Onze anos depois, Maria da Penha publicou o livro "Sobrevivi... Posso Contar", que evidenciou para o mundo a omissão estatal em relação aos casos de violência contra a mulher.  
 
A bioquímica também considera importante que os meios de comunicação ajudem a conscientizar a população, seja falando sobre os impactos da violência de gênero, seja informando os canais de denúncia disponíveis, como o ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), da Presidência da República. "No momento em que o homem, principalmente, reflete sobre o que viu seu pai fazer com a sua mãe, pode até se sensibilizar mais e reverter um  pouco a agressão que transmite em casa".

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