Nova York (AE-NEWSWEEK) - Quem questionou a sabedoria da diplomacia que precedeu a guerra de Kosovo está na obrigação de expressar respeito ao governo Clinton pelo vigor com que perseverou e a habilidade com que sustentou a unidade aliada e conseguiu a anuência da Rússia.
Mas a vitória nos deixa com o desafio muito sério de evitar que fiquemos permanentemente atolados num canto dos Bálcãs, como modernos equivalentes dos impérios otomano e austríaco.
O chamado plano de Petersburgo corre o risco de tornar-se um compromisso oco, aberto para um envolvimento cada vez mais profundo, entregando-nos o papel de gendarme de uma região de ódios apaixonados e onde temos pouco interesse estratégico.
Muitos comentaristas acentuaram as diferenças entre o plano apresentado pelo presidente finlandês, ratificado pelo Parlamento iugoslavo, e as propostas de Rambouillet, em nome das quais foram iniciados os bombardeios. E há matizes de certa importância. As forças da Otan estão entrando em Kosovo com base numa decisão da ONU, em vez de um acordo entre Belgrado e a Aliança Atlântica.
Kosovo é explicitamente descrita como parte da Iugoslávia, embora autônoma (Ponto 5); afirmam-se a integridade territorial e a soberania da Iugoslávia (Ponto 8).
Abandonou-se a cláusula que dispunha sobre a realização de um referendo ao fim de três anos e, em certa medida, diluiu-se, numa série de disposições da ONU e na presença de forças russas, a insistência inicial no completo controle pela Otan.
Mas mesmo quando se assemelha aos acordos de Rambouillet, o plano de paz ameaça envolver os norte-americanos, em caráter quase permanente, num mar interminável de conflitos prognosticáveis e numa possível guerra de guerrilhas.
A linguagem empolada do acordo teve o objetivo de tornar-se impenetrável, de forma que cada uma das partes em litígio pudesse interpretar as ambiguidades inevitáveis como favorável a seu lado. Esse estratagema diplomático não deixa de ter precedentes, mas se torna um problema especial quando envolve facções que refinaram suas paixões voláteis, durante séculos, no caldeirão das chacinas mútuas.
O plano de Petersburgo estipula quatro estágios de evolução política: 1) um governo interino em Kosovo chefiado por um administrador designado; 2) presença civil internacional; 3) substancial autonomia para o povo de Kosovo dentro da Iugoslávia sob a égide do Conselho de Segurança da ONU; 4) o desenvolvimento de instituições provisórias democráticas e autônomas.
Qualquer aspecto desse esquema é uma mina explosiva em potencial. Segundo o Ponto 8, a estrutura política levaria inteiramente em conta os acordos de Rambouillet e os princípios de soberania e integridade territorial da República Federal da Iugoslávia.
Como se poderia conciliar esses dois objetivos? Rambouillet estabeleceu a ocupação de Kosovo pela Otan e um referendo sobre o futuro de Kosovo no fim de três anos. O plano de paz estaca na autonomia e reiteradamente afirma a soberania da Iugoslávia. Mas o Exército de Libertação de Kosovo (ELK) lutou e sofreu pela independência, não pela autonomia.
Depois do que sofreram seus membros e a população de Kosovo durante a campanha de limpeza étnica, permanecer como parte da Sérvia será inconcebível para eles. A cláusula adicional do Ponto 8, para a "desmilitarização do ELK" pela Otan, é ainda mais difícil de se imaginar que aconteça.
Se é para alguma dessas cláusulas ser concretizada, elas precisam ser impostas pelas forças militares norte-americanas e pelas outras forças aliadas. Tendo lutado ao lado dos albaneses, nos veremos na irônica posição de opor-lhes resistência (ou talvez até de lutar contra eles) em questões sobre a independência. E tendo feito a guerra para defender a população albanesa da limpeza étnica praticada na Sérvia, podemos ser agora obrigados a proteger a população sérvia da fúria de seus vizinhos albaneses. A menos que queiramos manter uma ocupação militar quase permanente, a limpeza étnica da população pode muito bem ser o resultado.
A confusão é ampliada por outra cláusula do Ponto 8, que prevê "negociações entre as partes". Mas quem são essas partes? Presumivelmente são os sérvios e os albaneses.
Acrescenta que nenhum impasse deve "causar ruptura ou atraso no estabelecimento de instituições autônomas" - uma cláusula que poderia, paradoxalmente, garantir o impasse. O acordo silencia quanto a quem deveria arcar com a missão de impor tais instituições autônomas, deixando implicitamente a responsabilidade para os Estados Unidos. Não estamos apenas, sem perceber, a caminho de substituir os impérios otomano e austríaco nos Bálcãs"; com o tempo, nos defrontaríamos com a mesma hostilidade que eles enfrentaram de parte das populações locais.
As disposições delineadas para comando configuram a ambiguidade. As forças militares, nas palavras da resolução ONU, serão substancialmente da Otan. Tropas adicionais da Rússia serão designadas, com disposições sobre comando indeterminadas. Para evitar a divisão de Kosovo, tropas russas não receberão uma área separada - a não ser que se antecipem à decisão, adquirindo direitos de posse, mediante ocupação de uma parte de Kosovo unilateralmente, como parece que fizeram na semana passada. Além do mais, o papel daquelas forças é vago e as normas para seu emprego são definidas pelo Conselho de Segurança.
São enganosas as analogias com a Bósnia. O acordo de Dayton que pôs termo a conflito na Bósnia foi negociado e aprovado por todas as partes. Em Kosovo, a Otan impôs um acordo para ambas as partes. Na Bósnia, os três exércitos terminaram com territórios homogêneos especificamente designados para eles pelos acordos de Dayton. Em Kosovo, não existe solução equivalente. Nem há exércitos para separar, já que as forças sérvias presumivelmente terão se retirado. A missão da Otan: confirmar a partida das forças sérvias, desarmar o ELK e proteger as fronteiras de Kosovo - provavelmente a colocará em conflito com os albaneses, que procuraram influenciar os acontecimentos em Kosovo ou na Macedônia. Tudo isso pode situar diretamente nossas tropas no meio de uma guerra civil de guerrilha, apresentando o mesmo dilema que encontramos na Somália.
Disposições para o governo civil contêm conflitos potenciais semelhantes. As enormes tarefas da reconstrução recairão sobre o administrador indicado pela Secretaria Geral da ONU, "em consulta com o Conselho de Segurança", e trabalhando com mandato estabelecido por uma resolução da ONU. O administrador precisará organizar uma força policial e supervisionar a restauração de serviços essenciais num país totalmente devastado. À medida que as instituições locais kosovares ganhem vida, é provável que desafiem a autoridade do administrador civil em nome da independência.
O que acontecerá se o ELK emergir como força policial da autoridade autônoma? E a Sérvia, à medida que se recupera, pode desafiar o administrador civil em nome da soberania da Iugoslávia - possivelmente com apoio da Rússia?
A situação de Kosovo não é a mesma da Bósnia em outro aspecto importante. A Bósnia era de certo modo sui generis. A evolução dos acontecimentos em Kosovo está fadada a um profundo impacto nos vizinhos. O impacto imediato provavelmente será nos albaneses da Macedônia, que constituem quase um quarto da população local. É possível que demandem para si, no mínimo, o mesmo status concedido aos kossovares.
E a desintegração da Macedônia deflagaria outra explosão nos Bálcãs. Pressões comparáveis podem ser esperadas de outra pequena minoria albanesa em Montenegro. Igualmente, existe um impulso por uma Albânia maior, estimulado tanto por Tirana quanto por albaneses que vivem na emigração e fornecem a maior parte da musculatura financeira.
Consciente dessas tendências - e como um suborno para o amor-próprio russo e iugoslavo - o Ocidente concedeu a Belgrado a soberania sobre Kosovo a fim de impedir que surgisse como uma presença internacional independente.
Mas o plano não tem condições de funcionar tranquilamente. A Rússia e a Iugoslávia terão todo incentivo para afirmar a soberania da Iugoslávia, enquanto os Estados Unidos e a Otan não podem se colocar indefinidamente no caminho da autodeterminação albanesa.
Em resumo, se tentarmos levar à prática a resolução da ONU ao longo de qualquer período, vamos estar em cena como parte permanente da disputa, em amargas e insondáveis rixas balcânicas. Seria muito mais inteligente cortar o nó górdio e conceder a independência a Kosovo como parte de uma completa regularização balcânica - talvez incluindo a autodeterminação de cada um dos três grupos étnicos da Bósnia. Nesse acordo, as fronteiras de Kosovo e de seus vizinhos deverão ser garantidas pela Otan ou pela Organização para Segurança e Cooperação da Europa. Tal qual na Bósnia, as forças internacionais patrulhariam ambos os lados dessas fronteiras, pelo menos por um substancial período em caráter provisório.
É da maior importância deslocar o problema para uma solução o rapidamente possível, em vista da hostilidade do ambiente internacional. Muitas nações apoiaram ou toleraram os acordos de Dayton. Não é o caso de Kosovo. A Rússia pode ter desistido de tentar influenciar significativamente no resultado imediato. Mas se sente profundamente humilhada.
Kosovo tornou-se um símbolo público da perda de influência da Rússia e do aviltamento público do Ocidente. Não tem incentivo para facilitar o acordo, quando estiver se materializando. Ao contrário, é possível que Moscou procure motivos para obstrução ou para se opor a quaisquer circunstâncias percebidas como tendências hegemônicas norte-americanas. Do ponto de vista dos Estados Unidos, quanto mais depressa o problema de Kosovo for removido da agenda russo-norte-americana, melhor para nossas relações de longo prazo. E a Rússia não deve ter interesse em perpetuar um estado de coisas em que pode nos estorvar mas no qual não consegue prevalecer.
O mesmo é verdade, em menor grau, para a China, que rejeita a maneira unilateral com que a Otan interveio numa questão que Pequim encara como assuntos internos da Iugoslávia.
De fato, a maior parte dos países do mundo terá um incentivo para criar obstáculos à aplicação dos princípios de Rambouillet, consagrados no acordo de Kosovo. Países com a preocupação de que poderiam ficar sujeitos à ação unilateral da Otan podem distanciar-se de nós, depois que a poeira assentar. Teriam um incentivo para adquirir armas de destruição em massa, como dissuasor mais seguro contra a superioridade dos Estados Unidos em poderio convencional.
Com que ironia a história repete seus moldes. Durante a guerra fria, as democracias fiavam-se em armas nucleares para equilibrar uma suposta superioridade convencional soviética.
No período pós-Kosovo são os países menores que podem voltar-se para as armas de destruição em massa, em resposta à esmagadora dianteira tecnológica dos Estados Unidos em armamento convencional. Por todas essas razões, é imperioso empreender uma avaliação mais consistente de como relacionar a nova política exterior com o consenso internacional.
Mesmo a aliança atlântica nunca mais será a mesma depois de Kosovo. O governo Clinton, com muita habilidade, manteve a aliança unida durante mais de 10 semanas de bombardeio. Mas a decisão dos chefes de Estado da União Européia em Colônia de acelerar a unificação da defesa e da política exterior européia reflete profunda inquietação sobre a importância relativa da Europa diante da tática autoritária dos Estados Unidos. Um sério esforço europeu para constituir centros autônomos de decisão estaria longe de ser indesejável, desde que a Europa apóie suas novas organizações com recursos apropriados. Mas isso requer também numa nova reflexão de ambos os lados do Atlântico, para que sobreviva o interesse vital norte-americano em estreita cooperação transatlântica.
Num futuro previsível, os Estados Unidos terão uma divisão e metade de nossos soldados no posto de sentinela quase permanente nas imediações dos Bálcãs. Devemos, portanto, temperar o triunfalismo com um pouco de reflexão sobre a necessidade de estabelecer prioridades geopolíticas.
Antes de tratarmos Kosovo como modelo para uma nova era de diplomacia humanitária, devemos examinar onde mais a diplomacia ou a estratégia podem são aplicáveis. Há cerca de 22 milhões de refugiados em todo o mundo e algumas dezenas de conflitos étnicos. Para qual desses casos seria relevante um combinado comparável de força e diplomacia? Onde mais poderíamos lançar bombas durante 10 semanas sem baixas militares norte-americanas, sem um risco proibitivo de escalada ou sem criar precedentes insustentáveis?
A demonstração do que as democracias podem realizar quando estimuladas nos colocará num bom pé nos anos vindouros. Mas o legado definitivo de Kosovo dependerá de nosso jogo diplomático, na parada decisiva, estar à altura da nossa demonstração de poder.

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