Brasília, 22 (AE) - O engenheiro e jornalista Rubens Rodrigues dos Santos, do "Estado", disse hoje que o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco significará o desvio de apenas 6% (ou 127 metros cúbicos por segundo) do volume de água do rio, não prejudicando Estados que o usam para projetos de irrigação. A transposição enfrenta resistências na Bahia, Alagoas e Sergipe.
Ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo em 1959 por reportagens sobre a seca nordestina publicadas no "Estado", Santos culpou o Executivo pelas resistências ao projeto.
"Houve certa inabilidade do governo ao apresentar o projeto à opinião pública e aos parlamentares", criticou ele, após dar depoimento sobre o tema, em sessão da comissão especial da Câmara dos Deputados que discute o assunto.
O problema, segundo o jornalista, é que a primeira fase da transposição, apesar de o projeto se chamar água para Todos, beneficiará diretamente só a quatro Estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.
Assim, para ele, faltou ao governo propor e divulgar medidas compensatórias aos demais Estados. "Mas recebi informações de que isso será feito", afirmou ele, referindo-se a investimentos do governo em outros projetos de irrigação no Nordeste.
Segundo Santos, o projeto representa um importante avanço no combate à seca no Nordeste. "A transposição trata de um problema social do País e não apenas do Nordeste", afirmou.
O jornalista citou o exemplo da transposição das águas do Rio São Joaquim, nos Estados Unidos, para irrigar a Califórnia. Segundo ele, o projeto norte-americano desviou 12% da água do rio - o dobro do que será transposto, nos períodos de maior necessidade, caso o projeto do Rio São Francisco venha a ser desenvolvido.
De acordo com o jornalista, a Bahia, Alagoas e Sergipe usam cerca de 400 metros cúbicos por segundo de água do Rio São Francisco em projetos locais de irrigação. A transposição, segundo ele, representaria o desvio de, no máximo, 127 metros cúbicos por segundo.
Santos contou, durante a sessão que, nos anos 50, a serviço do "Estado", alistou-se numa frente de trabalho para combater as mazelas da estiagem e passou 15 dias desmatando o fundo do Açude Gargalheiras, no Rio Grande do Norte, para redigir reportagens sobre a indústria da seca.
Durante a sessão na comissão especial da Câmara, o jornalista referiu-se ao interesse e preocupação do "Estado" com a seca no Nordeste "por se tratar de um dos graves problemas nacionais". "Fui enviado por Júlio de Mesquita Filho
Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita ao Nordeste e a diversos locais do mundo para conhecer de perto projetos de irrigação", contou o jornalista.
O professor de Climatologia Luiz Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), afirmou, durante a sessão, que deverá ocorrer seca severa no Nordeste por dois anos consecutivos, entre 2002 e 2005. Molion disse que as próximas duas décadas poderão ser marcadas por mais estiagens, em comparação com os últimos 40 anos. "Se essa água (do Rio São Francisco) não for para lá, o Nordeste continuará pobre", afirmou Molion, que fez previsões com base em dados estatísticos de chuva nos últimos 150 anos.
A comissão vai requerer informações ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre empréstimo concedido para obras de irrigação na República Dominicana. Para o relator da comissão, Marcondes Gadelha (PFL-PB), o empréstimo no exterior deixa claro que o BNDES tem recursos para financiar a transposição do Rio São Francisco, que tem um orçamento de R$ 2,8 bilhões.
Ontem (21), o presidente Fernando Henrique Cardoso estabeleceu o fim de junho como o prazo final para o governo decidier se executa ou não o projeto de transposição do São Francisco.

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