Paris, 28 (AE) - Enfim, um debate na Europa! Desta vez, não são as afetações e divagações dos gentis intelectuais franceses (Bernard-Henry Lévy, André Glucksmann, etc...) que ateiam fogo ao pó, para provocar discórdia, mas o debate nos vem da Alemanha. Isso quer dizer que temos um osso duro a roer. Com questões fundamentais e palavras grandiosas: o Ser, o humanismo, a liberdade...
A batalha foi lançada em julho durante uma conferência por um jovem filósofo, Peter Sloterdijk (52 anos). Destacamos apenas dois itens. O primeiro é uma violenta "salva de ataques" contra o grande filósofo Jurgen Habermas (70 anos), que depois da Guerra assumiu o facho de Adorno e da Escola de Frankfurt e que encarna a Alemanha pós-nazista, a Alemanha da consciência infeliz.
Tendo como alvo o pensamento de Habermas, seu jovem rival escreve: "A era dos filhos hipernormais de pais nacional-socialistas chega ao fim".
E, mais longe: "Chegou a hora de nos reunir junto à tumba de uma época para fazer o balanço e refletir no fim de uma hipocrisia".
O anúncio é claro: Sloderdijk vira a página do nazismo.
Mas vai mais longe. Anuncia "a morte do humanismo". Porque? Porque o humanismo "não conseguiu domesticar a raça animal do homem". É preciso "pensar no pós-humanismo". Os fundamentos da sociedade atual "são pós-literários, pós-epistolares e, portanto, pós-humanistas".
Podemos dizer que a inovação de Sloterdijk não é tão nova assim. Na França, há anos, alguns filósofos, como Jean-Franços Lyotard, anunciaram o "pós-moderno". Mas a diferença é que ninguém jamais compreendeu o que Lyotard entende por "pós-moderno". Ao contrário, o que Sloterdijk propõe é legível e muito preocupante.
Pois, como o humanismo está extinto, o homem deve usar novos instrumentos sobre si próprio. Trata-se de "realizar uma reforma da qualidade da espécie...", "... de conceber uma tecnologia antropológica, inclusive um planejamento explícito das características da espécie". E ele indaga "se toda a espécie humana não irá passar de um fatalismo da natalidade a uma natalidade escolhida e a uma seleção pré-natal".
Pode-se adivinhar de onde vêm estas visões de Peter Sloterdijk. O tema do "homem novo" Nietzscheano não está longe
com a diferença agravante de que jamais Nietzsche evocou manipulações genéticas para promover o novo homem. Outro grande ancestral é Heidegger, que Sloterdijk cita frequentemente (Heidegger, o teórico da tecnologia). E o fato de que Heidegger foi acusado de conluio com o nazismo não tem nada de surpreendente.
Sloterdijk acha portanto que chegou a hora de utilizar estes formidáveis meios, que são as biotecnologias, tendo, segundo alguns, como pano de fundo o eco das experiências de eugenia sonhadas pelo nazismo.
Deixemos a palavra a Sloterdijk: "Desde sempre, os homens foram feitos por uma série de combinações de regras, de classes e de castas, de casamento e de educação - trata-se claramente de uma seleção. Nesse meio tempo, novas possibilidades de otimização estão em vista. Por isso, será necessário convocar, nos próximos anos, uma Assembléia Geral das Ciências do Homem para discutir os limites da biotecnologia e a formulação de um código de conduta".
Esta proposta não é tão subversiva quanto pretendem os inimigos do filósofo. Ao contrário, são os postulados iniciais de Sloterdijk que podem causar preocupação: morte do humanismo, decisão de se permitir pensar no fim total dos tabus, na exigência de uma plena liberdade, ao contrário da Alemanha da culpabilidade. É neste sentido que Sloterdijk constitui uma ruptura franca com a filosofia alemã do pós-Guerra.
Alguns observam que o pensamento pós-humanista de Sloterdijk foi dado a conhecer neste último mês de julho, isto é, exatamente no momento em que a Alemanha reencontra sua antiga capital, Berlim.
Desta forma, o filósofo da República de Berlim, Peter Sloterdijk, viria suceder o filósofo da República de Bonn, Juergen Habermas.

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