Enfermeiro vive triplo preconceito
Curitiba - O profissional de saúde J.C.S.F., de 43 anos, foi uma das vítimas da Aids. Ele trabalhava há 25 anos numa enfermaria em São Paulo e conviveu com casos de doentes de Aids. Até mesmo o cantor e compositor Cazuza chegou a ser atendido por J.C., que mantinha um relacionamento estável de 20 anos com um companheiro. Em 1985, o enfermeiro descobriu que era portador do vírus HIV. ''Até hoje não sei onde falhei, onde vacilei, onde deixei de usar preservativo'', diz. O companheiro dele não é portador do HIV até hoje. ''Só pode ter sido numa relação extraconjugal. Isso tem que ter ocorrido num segundo. Acho que fui vítima da minha própria profissão. Hoje sei que ninguém está livre da Aids''.
J.C. vive todo o tipo de preconceito. Ele é homossexual, afrodescendente e portador do HIV. ''O preconceito contra mim não é apenas por causa da raça. Acho que vive um triplo preconceito social. Resolvi encarar o mundo de frente e lutar pela história de milhares de pessoas que está morrendo por causa da Aids'', conta. O enfermeiro é ativista de uma organização não governamental que incentiva a prevenção em todas as relações sexuais: Associação Brasileira de Desenvolvimento Social (ABDS).
Hoje, J.C. mora com outro companheiro em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. ''As pessoas precisam saber que não existe mais infecção por transfusão hoje. É com sexo. As pessoas fazem sexo e se recusam a falar sobre o tema. A educação precisa ser ampla. Os pais precisam falar sobre preservativos com seus filhos. Não dá para ser hipócrita e acreditar que o filho adolescente não está transando''. Os homossexuais, segundo ele, continuam sendo um grupo de risco por conta do preconceito social.
''O preconceito cria guetos. Um homossexual não pode dizer que tem uma preferência sexual diferente e tem que se esconder. Procurar uma transa eventual e rápida. Infelizmente busca isso em locais de vulnerabilidade como as saunas, os cinemas e as ciclovias''. J.C. aplaude a campanha que começa hoje no Brasil e diz que o negro homossexual precisa se livrar dos preconceitos. ''Negro é visto como sujo. Quando é pobre, é pior ainda. Ele é massacrado por causa da cor da pele. É taxado de promíscuo, mesmo que seja fiel no relacionamento. Mas ninguém vê que quem trouxe a doença para o Brasil foram os ricos. Os pobres adoecem por causa da pouca resistência biológica. Temos que mudar esse quadro de preconceito que existe hoje no Brasil'', desabafa.(L.P.)





