Lucinéia Parra
De Maringá
Depois de apresentar o trabalho para o curso de especialização, cujos temas foram a assistência de enfermagem e o preconceito contra o deficiente físico, a enfermeira Ana Paula Scramin, 34 anos, se prepara para escrever uma autobiografia. Além de relatar o preconceito que vem sofrendo há nove anos, quando sofreu um acidente de carro e ficou paraplégica, Ana Paula, pretende, através da autobiografia, discutir uma forma de interação com a sociedade.
O livro é o resultado da monografia para o curso de especialização em ‘‘Administração em Assistência de Enfermagem’’, apresentada no início de outubro na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Baseada na própria experiência, Ana Paula relatou o tipo de assistência que recebeu de enfermeiras durante o período que ficou hospitalizada. ‘‘Como enfermeira, tinha um senso crítico em relação à assistência recebida. Analisando cada gesto das enfermeiras é impossível deixar de compará-las a robôs’’, diz.
Segundo Ana Paula, os profissionais de enfermagem agem de forma ‘‘fria’’ com os pacientes. ‘‘Enfermeiros e enfermeiras agem de forma robotizada, o que acaba interferindo na reabilitação do paciente’’, argumenta. Ana Paula entende que os cursos de enfermagem devem preparar o profissional para uma assistência mais humanizada. ‘‘Acredito que isso não é impossível porque nem mesmo a sobrecarga de serviço justifica tamanha frieza no tratamento dos pacientes’’.
Os problemas com os profissionais de enfermagem não foram os únicos enfrentados por ana Paula depois do acidente. Outra dificuldade muito mais abrangente e perversa revelou a ela a dura realidade dos deficientes físicos diante da sociedade. Na monografia e futuramente no livro que pretende lançar, Ana Paula relembra o preconceito da sociedade com relação à deficiência.
‘‘O tratamento das pessoas era um antes do acidente e se transformou totalmente depois. Eu continuava sendo a mesma pessoa. Tinha sentimentos, desejos, anseios, medo, preocupação enfim, todos os sentimentos, mas as pessoas me enxergavam de forma diferente. De repente, eu não tinha mais direito a nada porque as pessoas achavam que eu deveria ficar em casa alimentando o sentimento de invalidez até o último dia de minha vida’’.
Segundo Ana Paula, a sociedade em geral, ‘‘olha’’ para o deficiente como se ele fosse ‘‘algo’’ estranho. ‘‘Se você é deficiente e consegue trabalhar e ter uma vida normal, você é considerado um super-herói. Se não trabalha é visto com estranheza’’, compara. O preconceito da sociedade está presente na vida de Ana Paula, a partir do momento que decidiu voltar ao trabalho depois de quatro meses do acidente.
Ela contou com o apoio de uma amiga que trabalha na área de saúde, mas confessa que sofreu inúmeras investidas para que desistisse do seu objetivo. ‘‘Na minha cabeça eu não era incapaz de continuar trabalhando, mas as pessoas já tinham incorporado este processo de invalidez. Elas me achavam incapaz de realizar qualquer atividade e nos bastidores tentaram de tudo para impedir que eu voltasse a trabalhar’’, revela.
Atualmente ela trabalha no setor de auditoria da Secretaria de Saúde. ‘‘É claro que certas atividades o deficiente não consegue mesmo fazer. Eu, por exemplo, não posso atuar no pronto-socorro ou na UTI de um hospital, mas há outros setores que posso tranquilamente trabalhar. Eu mostrei isso para as pessoas que duvidavam da capacidade de um deficiente’’.
Fora do ambiente de trabalho, o preconceito, conforme Ana Paula, e tão ou mais evidente. Ela cita como exemplo uma senhora que a abordou em um supermercado indagando se tinha pedido autorização da mãe para fazer compras. ‘‘Eu estava fazendo a compra e colocava no carrinho tudo que queria, mas a senhora achava que eu tinha que ter autorização da minha mãe. Aquilo foi um absurdo’’.
Em outras situações, as dificuldades ocorrem por falta de sensibilidade da sociedade. Ela critica a falta de acesso aos prédios e avenidas. ‘‘Eu sou magra e invariavelmente tem alguém querendo me carregar para entrar em algum lugar. Mas se eu fosse gorda não teria direito a participar da maioria dos eventos. As pessoas não entendem que os deficientes também têm direitos’’.Ana Paula Scramin pretende, através da autobiografia, discutir a interação do portador de deficiência física com a sociedade
Marcos NegriniAna Paula Scramin sofreu acidente de carro há nove anos e ficou paraplégica: senso crítico em relação à assistência recebida

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