Endividamento das empresas foi recorde em 99; com a menor rentabilidade desde o início do Plano Real19/Mar, 20:56 Por Márcia de Chiara São Paulo, 19 (AE) - As empresas de capital aberto registraram no ano passado o maior endividamento desde 1995, primeiro ano completo de vigência do Plano Real. Apesar disso, elas obtiveram o melhor desempenho com as suas atividades. A desvalorização do real ante o dólar e os juros elevados foram os principais fatores que contribuíram para prejudicar os resultados. "O que os bancos ganharam com a desvalorização do real e a alta dos juros, as empresas perderam", afirma o sócio-diretor da Austin Asis e professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Alberto Borges Matias. Ele ressalta que houve transferência de renda do sistema produtivo para o financeiro. Para chegar a essa conclsão, Matias avaliou o balanço de 123 companhias de capital aberto com faturamento anual superior a R$ 50 milhões e atuação nos setores metalúrgico, siderúrgico, alimentício, têxtil, de telecomunicações, fertilizantes, bebidas e fumo. A divída total dessas 123 empresas superou no ano passado R$ 50 bilhões. O período considerado na análise foi de janeiro a setembro de 1999, comparado com os mesmos meses desde 1995. Matias enfatiza que foram levados em conta dados medianos dos balanços e não as médias, para reduzir as distorções provocadas por números isolados de grande ou pequena magnitude. Investimentos - De acordo com o estudo, em 1999, para cada R$ 100 que os donos investiram nas companhias, foram aplicados R$ 124 de capital de terceiros, obtidos por meio de empréstimos. Até 1998, para cada R$ 100 de recursos próprios haviam sido aplicados, no máximo, R$ 107 de capital de terceiros. Matias explica que a maior fatia do endividamento total, cerca de 75%, resultou da desvalorização do real e a parcela restante foi produto dos juros, que têm efeito multiplicador sobre a dívida. É que, mesmo quem pega empréstimos no exterior tem de pagar parte da dívida com juros, de acordo com taxas do mercado interno. Os números mostram que as despesas financeiras, com juros e gastos com desvalorização da moeda, consumiram um quarto das vendas líquidas (descontado os impostos) dessas empresas no ano passado. Esse também é o maior nível desde 1995, diz o especialista. De cada R$ 100 faturados em 1999, R$ 25 foram para despesas financeiras. No ano anterior, os gastos financeiros representavam 11,3% das vendas líquidas e em 1995 não chegaram a 5,6% do faturamento. Desempenho - As despesas elevadas com juros e desvalorização acabaram afetando os resultados. A rentabilidade, que avalia a relação entre lucro líquido e patrimônio líquido, foi , no ano passado, a pior desde 1995. De cada R$ 100 que os donos das empresas aplicaram no negócio, perderam R$ 2,3 em 1999. Em 1997 e 1998, a rentabilidade havia crescido 2,4% e 1,2%, respectivamente. Apesar de as empresas terem tido boa parte dos recursos corroídos pelo alto custo financeiro, elas exibiram vigor nos negócios. Para cada R$ 100 aplicados na atividade produtiva, ganharam R$ 16,1. De 1995 a 1998, o resultado da atividade principal não ultrapassou 8,5% do investimento. Em dois anos consecutivos, por exemplo, esse indicador correspondeu a 7,3% do patrimônio líquido. "Exatamente no ano em que as empresas conseguiram o maior resultado com a sua atividade tiveram a menor rentabilidade", destaca Matias. "Todo o esforço para alcançar níveis elevados de produtividade foi usado para pagar despesas financeiras". Na análise do professor, neste ano parte das empresas ainda terá de trabalhar para pagar dívidas e cobrir estragos provocados pelos juros altos e pela desvalorização da moeda. A partir de 2001, no entanto, ficarão mais visíveis os sinais de recuperação dessas companhias e seu impacto no ritmo de atividade econômica, explica Matias. Ele argumenta que o cenário é favorável já neste ano. Dentre os fatores positivos, Matias ressalta que as empresas estão enxutas, produtivas e obtendo resultados favoráveis em seu ramo de atividade. Além disso, uma nova desvalorização da moeda não se faz necessária no curto prazo e os juros tendem a baixar. Esses fatores conjugados indicam que a perspectiva é que essas companhias voltem a ser rentáveis assim que se livrarem de dívidas financeiras do passado.