Brasília, 12 (AE) - Um encontro reservado com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Pálácio da Alvorada, garantiu hoje uma sobrevida para o ministro da Defesa, Élcio álvares. Após desgastante processo de "fritura", que se arrastou por semanas, álvares ganhou sobrevida e vai ser mantido no cargo temporariamente. Após o encontro de uma hora, álvares disse que vai ficar.
álvares contou que o encontro foi melhor do que o esperado. Depois, negou que tivesse pedido demissão, descartou a hipótese de que o papel dele estivesse sendo esvaziado pelo presidente e garantiu que a ida para a pasta da Defesa não foi prêmio de consolação por não ter sido reeleito senador. "O presidente jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas comigo"
garantiu. "Ele tem inteira liberdade para me dizer, na hora que bem entender, que eu não sou mais ministro dele."
Fernando Henrique confirmou o ministro no cargo algumas horas depois de recebê-lo. "Eu nunca o desconfirmei", disse ele, acrescentando que o encontro no Alvorada foi apenas um despacho "de rotina". Após cerimônia no Planalto, hoje, o presidente declarou que o ministro "fica".
No início da noite, o porta-voz da Presidência, Georges Lamazire, avisou que, em nenhum momento, o presidente deixou de reiterar a disposição de manter álvares entre os colaboradores. "Não é responsabilidade do Palácio do Planalto o boato", afirmou Lamazire, referindo-se à onda de informações desencontradas sobre o destino do ministro. "A posição do presidente está bastante clara e não há nenhuma novidade."
O ministro da Defesa, depois de lembrar que é o primeiro civil a comandar militares, atribuiu a "interesses outros, que todos deveriam investigar mais", a campanha pela saída dele.
"Enquanto eu tiver a confiança do presidente, serei ministro da Defesa." álvares foi convocado logo cedo pelo presidente para o encontro no Alvorada. Na noite anterior, Fernando Henrique mostrava-se irritado com as insistentes perguntas sobre a permanência do ministro no cargo e dizia aos interlocutores que não entendia o comportamento da imprensa e o burburinho no Congresso, quando havia declarado que o ministro seria mantido. O presidente não admitiu que as declarações, feitas no dia anterior, tenham sido dúbias.
A irritação do presidente também foi alimentada por notícias de que partiam de tucanos próximos a ele os boatos sobre o afastamento do ministro. Fernando Henrique repetiu diversas vezes que não há nada de concreto contra álvares e, portanto, não vê motivo para o afastar. Insistiu ainda que tinha admiração e respeito pelo ministro, que foi líder dele no Senado ao longo de todo o primeiro mandato.
De manhã, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, reconhecia que as frequentes especulações indicavam que a situação, evidentemente, "não era de normalidade". "O ministro, por ser um homem de bem, deve estar numa situação muito desconfortável", comentou. Ele garantiu, porém, que não havia constrangimento para o governo na permanência de álvares por causa das investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara.
Alberto Cardoso afirmou que o serviço de inteligência do governo havia investigado as denúncias da CPI contra álvares, a pedido dele, "e nada foi encontrado". Quanto à ex-assessora do ministro Solange Antunes Resende, o general informou que ela não foi investigada. A CPI pedira a quebra do sigilo bancário, telefônico e fiscal dela, sob suspeita de envolvimento com o crime organizado no Espírito Santo. Isso marcou o início da crise que resultou na demissão do ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Walter Werner Br„uer. Segundo Alberto Cardoso, apesar de todo o noticiário, isso não teve efeito no trabalho diário das Forças Armadas.
álvares avisou que enviaria hoje ao Planalto o projeto que cria a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), um dos principais pontos de resistência da Aeronáutica. De acordo com o ministro, com a criação da Anac pelo Congresso, que ele espera que ocorra ainda este ano, o Departamento de Aviação Civil (DAC) desaparecerá.
O destino do pessoal do DAC, disse, dependerá da diretoria da Anac. Mas ele ressalvou que a transição será feita com o pessoal da Aeronáutica, que conhece a área. A segunda etapa do processo, segundo o ministro, será a discussão da privatização dos aeroportos, que também suscitará polêmicas.