Encontro na Universidade de Londrina debate cota para negros
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segunda-feira, 12 de abril de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
A Universidade Estadual de Londrina (UEL) nunca realizou um levantamento para saber quantos estudantes negros possui. Apesar disso, a ausência dessa parcela da população na instituição é uma certeza. Basta um rápido olhar pelas salas de aula, corredores, lanchonetes, biblioteca. A grande dúvida é como reverter esse quadro.
O debate ganha caráter oficial a partir de hoje, com a abertura do V Encontro ''O negro na universidade: o direito à inclusão'', que segue até quinta-feira no Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESA) da UEL. Com representantes da comunidade negra, Poder Público, Justiça e várias universidades do Brasil, o evento terá como principal tema a polêmica questão do sistema de cotas. A UEL ainda não definiu sua posição sobre o assunto. Já as principais organizações negras de Londrina afirmam: a adoção de cotas é fundamental para reparar a injustiça histórica cometida contra esse povo.
''Na construção da história brasileira, a população negra foi marginalizada e desconstruída enquanto cultura pelo próprio Estado. Nesse contexto, o sistema de cotas não é a questão principal, mas serve como um pavio detonador dessa discussão. Afinal, é a primeira vez que se assume uma política pública voltada para os negros no Brasil'', argumenta João Lino de Oliveira, membro da Associação Afro-Brasileira de Londrina (Aabra) e do Conselho Municipal da Comunidade Negra.
Para esses grupos, é preciso admitir de uma vez por todas que a discriminação racial é uma realidade no país e tem de ser combatida como tal. ''A discriminação implícita está em toda a parte. Ainda trabalhamos no subemprego. Hoje, para o negro ganhar mais dinheiro, tem que entrar no narcotráfico, e não queremos isso. Queremos a chance de mostrar que temos capacidade de pensar e agir'', afirma a presidente do Conselho, Vilma Santos de Oliveira (Ya-Mikumby). Para ela e outros membros da comunidade negra, a inclusão passa necessariamente pelo Ensino Superior.
''A universidade é um espaço privilegiado porque é disseminador do conhecimento aceito como tal. Dentro dele, o negro tem que deixar de ser objeto de pesquisa para ser educador, capacitado a reconstruir a dimensão da etnia'', assinala João Lino. ''Se você formar um professor ou um médico negro, por exemplo, ele vai compreender e atender melhor o próprio negro'', completa a presidente da Aabra, Maria Lucilda dos Santos.
Quanto ao critério de identificação dos negros para garantir o direito às vagas reservadas, os representantes entrevistados pela Folha afirmam que a questão é fácil de ser resolvida. ''O melhor mecanismo é a autodeclaração. Há leis para punir para quem tentar se aproveitar da situação, por crime de falsidade ideológica, por exemplo. O que importa, pelo menos da questão das cotas, é a aparência. É a nossa cor que gera discriminação'', defende Maria Lucilda.
A abertura oficial do V Encontro está marcada para hoje, às 19h30. Deverão estar presentes a reitora da UEL, Lygia Pupatto, o prefeito Nedson Micheleti (PT) e o secretário Especial para Assuntos Estratégicos do Paraná, Nizan Almeida, entre outras autoridades. O evento é aberto ao público.


