Kraw PenasTensãoDa esq. p/ dir.: Senador Eduardo Suplicy, Lerner, Selligman, Rafael Greca (Casa Civil) e Cândido Oliveira. No destaque, sem-terra atingido por coronhadasOs líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) manifestaram-se decepcionados, ontem à tarde, em Curitiba, ao final da reunião que tiveram com o governador Jaime Lerner. O encontro foi agendado para discutir os conflitos ocorridos no final de semana nas fazendas Boa Sorte e Santo Ângelo, em Marilena, região Noroeste do Estado. A principal reivindicação do MST - a demissão imediata do secretário de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, a quem acusam de omissão no caso da morte do agricultor Sebastião Camargo Filho - foi logo descartada pelo governador. ‘‘Eu não exijo a saída do presidente do MST, como não posso aceitar que exijam a saída do meu secretário, que tem ajudado na mediação’’, justificou.
O governador eximiu o secretário de Segurança de qualquer culpa no episódio que culminou com a morte do sem-terra e com a expulsão das famílias das fazendas.‘‘Quem provocou não foi ele (Cândido de Oliveira) e sim os proprietários’’, declarou. O secretário da Segurança classificou o pedido de seu afastamento como uma ‘‘manobra para não chamar a atenção para um fato maior, que são as invasões’’.
A reunião do MST com representantes do governo, com o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Milton Selligman e com as lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT) começou com mais de uma hora de atraso. Irritados com os seguranças do Palácio Iguaçu que não estavam permitindo a participação de todos os representantes do MST no encontro, os líderes do movimento disseram que só fariam suas reivindicações na presença do governador Jaime Lerner. O governador acabou atendendo ao apelo e passou a integrar a mesa.
Durante mais de meia-hora, os trabalhadores rurais voltaram a acusar as polícias Militar e Civil de estarem ligadas a fazendeiros e integrantes da bancada ruralista do Estado. ‘‘Os companheiros que estavam na Fazenda Santo Ângelo (desocupada na madrugada de sexta-feira) afirmaram que alguns dos encapuzados usavam coturnos e que sabiam atirar muito bem’’, disse Baggio. Outro líder do MST, Celso Anghinoni, pediu que um dos trabalhadores rurais presentes à reunião levantasse a camisa e mostrasse ao governador as costas feridas por coronhadas, que teriam sido deferidas pelos encapuzados.
O secretário da Segurança negou a participação da polícia, dizendo que ação contra os trabalhadores rurais deve estar ligada a um grupo armado contrato por pessoas ainda não identificadas. Ele reconheceu ter sido informado pelo representante da Polícia Militar do Noroeste de que havia ameaça de conflito na região na quinta-feira passada, e disse ter dado ordens para que a região próxima as fazendas fosse fortemente vigiada. ‘‘Estamos certos de que tomamos todas as medidas possíveis, mas faz parte da doutrina do MST tentar colocar a opinião pública contra a segurança pública’’, disse.
O líder ruralista e deputado federal, Abelardo Lupion, que também esteve na reunião, saiu em defesa do secretário. ‘‘Ele tem tido uma atuação elogiável e o Incra é que deve ser responsabilizado pelo caos que está criando no setor rural’’, disse. O presidente do Incra, Milton Selligman, rebateu as críticas sobre a lentidão do órgão afirmando que o instituto tem cumprido ‘‘com seriedade todos os mandatos de reintegração de posse expedidos pela Justiça’’.
Apesar de não admitir oficialmente a crise gerada no governo pela morte do sem-terra, o governador Jaime Lerner anunciou horas antes da reunião com os líderes do MST o remanejamento do secretário Cândido de Oliveira para a Casa Civil. Lerner disse que a mudança já estava preparada e que não tem nada a ver com o incidente do último final de semana. (Lei mais sobre o assunto no caderno Folha Cidades)

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