Marthas Vineyard, EUA, 21 (AE) - O mar amanheceu calmo nesta quarta-feira (21), com a água muito fria, de um azul profundo - e escondia dentro dele, a 11 quilômetros da praia e 45 metros de profundidade, o corpo mutilado de John Kennedy Junior, preso nos destroços do avião Piper Saratoga que ele pilotava na sexta, quando desapareceu.
Para um punhado de gente que estava na praia de Gay Head, e para milhões de norte-americanos que acompanhavam as buscas pela mídia, a descoberta do corpo por um robô da Marinha foi o fim da esperança. Até então, muitos ainda torciam por um milagre. A mulher dele, Carolyn, e sua cunhada, Lauren, também foram encontradas.
A entrada em ação do navio U.S. Grasp, com equipamentos especiais para detectar objetos submersos, foi decisiva para o achado - nos três primeiros dias de busca, tripulantes de barcos e aviões procuravam a olho.
A operação bem sucedida começou com computadores analisando dados do vôo captados por várias estações de radar, estimando um ponto possível de impacto na água - o que os norte-americanos chamam de "splash point".
Uma vez demarcado o "splash", sonares localizaram objetos submersos. Na terça à noite, uma câmara montada num robô, como aquela que encontrou os restos do Titanic, foi lançada no local pelo Grasp. As imagens que ela mandou do fundo do mar mostraram o avião e um corpo mutilado na cabine - oficiais monitorando as cenas confirmaram o achado. A lente captou até os números do avião. Os militares mantiveram a descoberta em segredo até avisar a família e a Casa Branca.
O encontro da cabine do avião foi uma surpresa para os especialistas da Marinha e da NTSB, a agência federal que investiga acidentes aéreos. Até então, presumia-se que o aparelho tivesse se desintegrado num violento choque no mar. Suportavam a tese o encontro de pequenos objetos, dias antes, na praia e no mar - uma roda, a bagagem de Lauren, documentos do avião, um pedaço de fuselagem, outro dos bancos, um sapato de mulher.
O corpo de John John foi retirado do mar por mergulhadores por volta do meio-dia. Em seguida, o senador Ted Kennedy foi levado da casa de Hyannisport para o Grasp, onde viu o que sobrou do corpo de seu sobrinho.
Na praia de Gay Head, curiosos se revezavam num mirante, em binóculos que funcionam com moedas de 25 centavos, para ver o Grasp em operação - mas a imagem dele no mar era apenas uma pequena mancha cinza no horizonte.
No balcão de um restaurante no cais de Woods Hole, em Marthas Vineyard, a notícia do achado do avião foi o assunto do dia. Pescadores, marinheiros, moradores da ilha e turistas assistem à CNN, desfiando opiniões sobre o acidente - um retrato do que acontece em diferentes rodinhas, na mídia e em todo país.
Um senhor com chapéu de Popeye disse que estava muito triste com a morte de Kennedy, mas jogou a culpa nele mesmo: "Sabe-se agora que John Junior não estava habilitado a pilotar por instrumentos em vôos noturnos, portanto nunca deveria ter arriscado a viagem que fez, sob neblina e à noite". Ninguém reage.
Uma mulher degustando lagosta revela que tinha sido convidada para o casamento de Rory Kannedy (John e Carolyn voavam de New Jersey para a festa, em Hyannisport, onde nunca chegaram). Todos olham para ela com inveja e admiração.
Um motorista de táxi entra na conversa. Tenta fazer piada, dizendo que o acidente trouxe tantos turistas extras que ele estava faturando US$ 1.500 por dia - recebe olhares de reprovação e sai da roda.
Alguém lembra do sofrimento possível dos passageiros nos últimos momentos do vôo, quando o aparelho caía descontrolado. Todos fazem silêncio. Um homem elegante, carregando seus tacos de golfe, chega, pede um gim. Um garçom quebra o silêncio e o convida a entrar na conversa. Ele foi curto e fatalista: "Acidentes acontecem."
Uma garota tomando sorvete diz que viu na Internet uma teoria de um atentado, mas alguém rebate. Outra diz que é namorada de um dos mergulhadores na operação de busca. Todas as atenções se voltam à senhorita, mas ela completa com um "desde sábado não o vejo". Sábado foi quando as buscas começaram.
O piloto de um barco de um milionário local reclama que o governo está botando muito dinheiro no resgate, mobilizando militares e recursos especiais, nunca usados na busca de cidadãos comuns perdidos no mar.
Abre-se uma discussão democrática sobre o uso do dinheiro público na empreitada. "Se fosse meu filho, ninguém estaria procurando por ele", concorda o homem do Popeye. "Você já foi presidente? É filho de presidente? E filho de presidente é cidadão comum?", pergunta, em sequência, a senhora da lagosta.
O homem dos tacos de golfe pede licença para opinar outra vez. Concedida. Ele reclama do excesso de cobertura da mídia norte-americana. "John gostava de se sentir como um homem comum
deveria ser tratado assim pela imprensa, a cobertura deveria ser mais discreta."
A senhora da lagosta discorda outra vez: "Quero ler tudo o que sair sobre eles. Morreram jovens e bonitos, acho que todos devemos chorar a morte da beleza e da juventude."

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