Agência Folha
O corpo de Moisés Rodrigues dos Santos, 12, foi encontrado ontem de manhã pela equipe do Corpo de Bombeiros do Piauí no Rio Poti, na localidade de Pedra Miúda, zona rural de Teresina. Outras oito crianças, entre 10 e 14 anos, que participavam de um acampamento à beira do rio, morreram afogadas anteontem. Elas haviam saído de suas casas acompanhadas por Cleiton Félix da Silva, 20, que organizava os passeios. Silva era o único adulto do grupo e, no entanto, saiu do acampamento cerca de uma hora antes do acidente. Estavam no local mais de 40 crianças.
O grupo de Silva era conhecido como Monteiro Lobato e, apesar de não ser de escoteiros, tinha regras e disciplinas parecidas, além de usarem uniformes semelhantes aos dos escoteiros.
‘‘Por volta das 5 horas, ele disse que tinha que ir para Teresina e deixou a gente lá. Ele pediu para gente não ir para o fundo’’, disse Jardel de Oliveira Mendes, 10, irmão de uma das vítimas.
Jardel e mais três colegas foram os primeiros a pedir socorro. Sem nenhum transporte para sair do local, eles conseguiram uma carona com um caminhoneiro que os levou até a delegacia.
O acidente aconteceu enquanto as crianças escovavam os dentes à beira do rio por volta das 6 horas. As crianças teriam caído em um buraco próximo à margem. No Rio Poti, que cruza a cidade de Teresina, é comum a utilização de dragas para retirada de areia pelas construtoras. Segundo o Corpo de Bombeiros, durante os meses de calor no Piauí, que vão de junho a outubro, é comum afogamentos neste rio.
Segundo relato de dois garotos que sobreviveram, quem tentava ajudar era levado pela correnteza. Um pescador, que estava próximo ao local, conseguiu salvar algumas crianças. Uma canoa foi utilizada por um dos garotos para ajudar no salvamento.
‘‘Teve um colega que me agarrou pelo pescoço e eu consegui puxá-lo’’, disse Igor Coelho, 11, um dos sobreviventes. Quatro das vítimas eram meninas: Deliane Raquel de Souza e Silva, 13; Egina Fabiana Nunes da Cunha, 11; Evelany Cristina Fernandes da Silva, 12, e Mônica Gomes da Silva, 11.
Morreram também Italo Rogel Costa Araújo, 11; Janielson de Oliveira Mendes, 12; Antonio Francisco Costa Araújo, 11, e Francisco Edivan Viana Leite, 10, além de Moisés. Silva está foragido desde ontem. A Polícia Civil havia prendido Cláudio Roberto Souza, 21, que ajudava Silva com os grupos de campistas, mas o liberou, já que ele não havia participado da organização deste acampamento.
Hoje o delegado Edmilson Santos Silva começa a ouvir os depoimentos, entre eles, o de Souza. Algumas testemunhas disseram que Silva teria saído com uma das garotas do grupo. Moradores do bairro de Buenos Aires acusam Silva de impor castigos rígidos às crianças que participam dos seus grupos.
O presidente do Centro Comunitário Buenos Aires, José de Fátima, disse que proibiu Silva de fazer as reuniões na creche do bairro por não concordar com os seus castigos. A reportagem conversou com quatro garotos que disseram que Silva obrigava-os a fazer flexão de braço no chão quente e a segurar pedras com braços abertos. Outro castigo comum era amarrar a pessoa. Na manhã do acidente, uma menina teria ficado amarrada numa árvores antes da saída de Silva.
O pai de Cleiton Silva, José Maria Ferreira da Silva, 58, disse que o filho era rígido com seus grupos, mas que seu principal objetivo era tirar as crianças das drogas.

mockup