Moscou, 03 (AE-REUTERS) - A Procuradoria-Geral da Rússia informou hoje (03) que encontrou provas de escuta telefônica ilegal, supostamente de conversas da família do presidente Boris Yeltsin, durante inspeções realizadas na terça-feira em mais de 20 empresas vinculadas ao magnata Boris Berezovski, um dos novos-ricos da Rússia pós-soviética.
Considerado a eminência parda do Kremlin, Berezovski é dono de um grupo com ramificações no setor financeiro, petrolífero e de telecomunicações. A maior parte do material, equipamentos e fitas de áudio e vídeo, foi recolhida na companhia petrolífera Sibneft e na agência de investigações privadas Atoll, que teria sido a encarregada de efetuar os grampos.
A imprensa russa - que batizou o caso de Kremlingate - especula que a batida nas empresas do milionário seria mais um round de seu enfrentamento com o primeiro-ministro Yevgueni Primakov e também o real motivo da destituição do procurador-geral Yuri Skuratov. Oficialmente, ele pediu demissão por motivos de saúde, na terça-feira, dia em que Yeltsin deixou inesperadamente a clínica em que se recupera de uma úlcera para ir ao Kremlin e "aceitar" a renúncia de Skuratov, além de demitir quatro conselheiros.
As informações sobre o motivo da demissão são, porém, disparatadas. Há dúvidas sobre se Skuratov foi destituído por ter decidido fazer as inspeções nas empresas de Berezovski, atendendo a uma ordem do primeiro-ministro, ou se, pelo contrário, resistiu a tomar essa medida e, por isso, foi afastado.
As autoridades disseram que a decisão foi tomada para apurar a denúncia do jornal Moskovsky Komsomolets, no dia 20, de que Berezovski havia gasto US$ 3 milhões para montar uma rede de escuta das conversas da filha de Yeltsin, Tatyana Dyachenko - tida como braço direito do pai -, e diversos altos funcionários. Segundo o diário, o objetivo do magnata era recolher material para proteger seus interesses comerciais, chantageando o presidente.
O artigo sustentava que o Ministério do Interior, o Serviço Federal de Segurança (sucessor da KGB) e até a Procuradoria- Geral estavam a par da espionagem contra a família do presidente. "Os únicos que não sabem são Yeltsin e sua família", garantia o diário russo.
Teorias contraditórias - O Komsomolskaya Pravda publicou hoje que Primakov tem minado as tentativas de Berezovski de manipular o governo, adotando medidas contra os interesses empresariais do magnata. Berezovski teria sido o responsável pela destituição dos ex-primeiros-ministros Serguei Kiriyenko e Viktor Chernomyrdin e estaria, agora, em conflito aberto com Primakov - que ganha mais poder no país à medida que Yeltsin se afasta cada vez mais do Kremlin, por causa de sua frágil saúde.
Nesse ponto, as teorias sobre o papel do procurador-geral Skuratov são contraditórias: o diário de negócios Kommersant assinala que ele autorizou as inspeções da unidade de elite Alfa nos escritórios da Sibneft. O magnata teria contra-atacado, usando sua influência sobre o presidente, que demitiu Skuratov. "Imagine-se a explosão social que provocaria a publicação das conversas telefônicas dos familiares do presidente, nas fitas que os agentes estavam procurando", comentou um articulista do Nezavissimaya Gazeta, para quem Yeltsin demitiu Skuratov para evitar que a Procuradoria-Geral tivesse acesso às fitas. Outra versão - do Moskovsky Komsomolets, com base em "fontes no governo" - é a de que ele foi destituído porque se recusou a ordenar a inspeção nas empresas do magnata.
"Encontramos o que procurávamos", disse hoje Wladimir Kazakov, alto funcionário da Procuradoria-Geral. Ele observou que ainda não se pode dizer quem foram as vítimas dos grampos e desmentiu categoricamente que a saída do procuraror-geral esteja relacionada com o caso.
"O material envolve personagens importantes", complementou Mikhail Katyshev, vice-chefe do órgão. Katyshev afirmou não ter dúvidas de que as provas são suficientes para incriminar essas pessoas.

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