Brasília, 06 (AE) - A Polícia Federal e a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico da Câmara identificaram uma fazenda no Maranhão, de propriedade de José Rogério Farias, irmão do deputado Augusto Farias (PPB-AL), que pode ser o elo entre a família Farias e a quadrilha de narcotráfico, roubo de cargas e venda ilegal de armas integrada pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal. A ligação entre Paulo César Farias, irmão de Augusto e José Rogério, e uma organização com ramificações no tráfico de drogas e lavagem de dinheiro faz parte de um processo na 12ª Vara Federal, em Brasília, a ser encaminhado à CPI nos próximos dias, conforme prevê um requerimento aprovado hoje na comissão.
Augusto Farias, que depôs hoje como convidado pela comissão, confirmou a existência da fazenda, localizada em Nova Olinda, no interior do Maranhão, mas negou qualquer envolvimento com o grupo de Hildebrando denunciado pelo caminhoneiro e traficante Jorge Meres.
Farias afirmou que nunca esteve no Maranhão e nem nos lugares citados pelo caminhoneiro, entre eles o Hotel Village Palace e Real Palace, em São Paulo, nos quais foram realizadas reuniões da quadrilha. Segundo o relator da CPI, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), a propriedade fica na rota do tráfico desenhada por Meres. "É muita coincidência a fazenda ficar em Nova Olinda, cidade que é uma das bases da quadrilha, no trajeto do roubo de cargas, que vai de Santa Inês a Belém do Pará", disse Torgan, durante o depoimento de Augusto Farias.
O depoimento foi marcado por um bate-boca entre Farias e o deputado Lino Rossi (PSDB-MT), que insistiu na necessidade de uma acareação entre o parlamentar e o caminhoneiro. Aos gritos, Farias, que recusou-se a ficar frente a frente com Meres por considerar uma provocação considerar os argumentos de um "bandido", disse que não admitia ser "desrespeitado" pelo deputado. "O senhor não é melhor do que eu", afirmou Farias aos berros.
"Eu não quero ser comparado ao senhor", respondeu Rossi no mesmo tom, o que fez com o presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB-ES) interrompesse o integrante da comissão para acabar com a briga. Segundo Malta, Farias tem direito regimentalmente a não aceitar a acareação com o caminhoneiro. "Seria me expor ao ridículo ter de me confrontar com um bandido", disse Augusto Farias.
Segundo ele, a confirmação de que a fazenda pertence a um dos integrantes da família Farias é um dos indícios mais importantes da investigação. Ele acredita que a revelação põe sob "suspeita" a família Farias. Um dado que faz parte da apuração da PF revela que um funcionário da fazenda, que denunciou a participação societária de Augusto Farias na fazenda de 2 mil hectares, está desaparecido.
Augusto é tutor e invetariante dos bens deixados por PC, encontrado morto em 1996. "Pode ser a coincidência mais desgraçada, mas não podemos deixar de questionar qual seria a razão da localização da propriedade na rota do tráfico da quadrilha", declarou Torgan.
Mais um elemento na lista de suspeitas detalhada pelo relator: a região é reduto eleitoral do deputado estadual do Maranhão José Gerardo, que integra o grupo, segundo depoimento de Jorge Meres, que já depôs na comissão. Desde a última sexta-feira, a Polícia Federal está investigando a fazenda com base no organograma apresentado por Meres em depoimento na CPI e à PF naquele Estado. Gerardo será ouvido hoje pela comissão. A PF também está tentando localizar o advogado William Souza, identificado inicialmente por William Marques, um dos integrantes do grupo.
Segundo Torgan, já foi confirmada a existência formal de três empresas apontadas como parte do esquema do narcotráfico. Uma das empresas, localizada em Campinas, fechou suas portas na última segunda-feira, três dias depois de ser citada em depoimento por Meres.
Augusto Farias disse que não conhece as pessoas listadas pelo traficante. Segundo ele, seu contato com Hildebrando, que teve seu mandato cassado e está preso no Batalhão de Operações Especiais (BOPE), em Brasília, resume-se aos contatos superficiais no parlamento.
"Como eu disse na época da CPI do PC a Moroni Torgan: meu irmão - PC Farias - pode ter tido todos os defeitos, menos o envolvimento com o narcotráfico", afirmou Augusto, acrescentando em seguida que sentia "orgulho" de ser irmão de PC. "Mesmo morto, eu boto minha mão no fogo pelo meu irmão". Faria leu duas cartas, uma assinada pelo presidente nacional do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho (PSDB-AL), e pelo ex-ministro da Justiça e senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e outra de autoria dos filhos de PC, Ingrid e Paulo Augusto César. "Será que o presidente do PSDB e um ex-ministro da Justiça dariam apoio a alguém envolvido com o tráfrico de drogas?", questionou.

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