Enclave agostiniano de Rolândia celebra proximidade com Leão XIV
Pároco teve aulas com o novo papa em seminário peruano. Igreja recebeu visita de Prevost em 2004
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2025
Pároco teve aulas com o novo papa em seminário peruano. Igreja recebeu visita de Prevost em 2004
Lúcio Flávio Moura - Especial para FOLHA 

A marcha implacável da História alcançou uma avenida infinita no Jardim Novo Horizonte, na zona oeste de Rolândia.
O logradouro conhecido como Girassol é um dos dois aneis que marcam o desenho viário do bairro, loteado em meados dos anos 1970. O maior é a Avenida Primavera.

Foi na Girassol que os agostinianos malteses se estabeleceram em 1992. Construíram um seminário e um templo de linhas arquitetônicas bem características, no qual o altar principal é rodeado por bancos de madeira que acompanham as curvas de um anfiteatro.
Agostinianos são os católicos pertencentes à Ordem de Santo Agostinho e os malteses são os habitantes de Malta, um arquipélago no Mar Mediterrâneo, no meio do caminho entre o extremo sul da Itália e a costa da Tunísia, na África.
Como os carros trafegam em torno de uma bela e espaçosa praça, do prédio paroquial e do grande salão da igreja, a Terra girou muitas vezes em torno do Sol até que este enclave que irradia o culto a Santo Agostinho vivesse esta semana seu dia mais auspicioso em três décadas.
Uma postagem no Instagram da Paróquia São Pedro Apóstolo e Nossa Senhora de Fátima proclamou, com orgulho, a notícia que sacudia o mundo, temperada com detalhes que prometem ser eternizados em uma placa muito em breve. “Habemus Papam! Papa Leão XIV”, dizia a legenda. Na foto, dois homens vestidos de branco dentro da igreja, um frei mais jovem, Maciel Alves Bueno, aplaudindo sorridente outro frei, mais experiente, que segura a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A foto correu a região nas mensagens do whatsapp e o texto grifada sobre ela tentava traduzir com algumas palavras a euforia dos fiéis, como se uma nova fumaça saísse de uma chaminé imaginária nos telhados da cidade. “Uma grande alegria para toda a Igreja, em especial para a Ordem Agostiniana e nossa comunidade paroquial. Que o Espírito Santo do oriente o conduza nessa nova e grande missão!”.
Os ineditismos que marcaram a escolha feita por um dos mais intelectualmente densos colégios eleitorais da humanidade, constituídos sem aviso prévio ao longo dos séculos, espantaram a audiência global. Afinal, neste quesito, o cardinalato havia caprichado na indicação do novo Sumo Pontífice: primeira vez de um cardeal novato, a primeira escolha de um estadunidense e o primeiro agostiniano entre os 267 sucessores de Pedro.
O nome do bairro ficou então mais sugestivo para quem vive a rotina da paróquia.
PASSAGEM PELO PARANÁ
Se Robert Francis Prevost, nascido nos subúrbios pobres do sul de Chicago, graduado em Matemática, licenciado em Teologia, doutor em Direito Canônico, bispo na peruana Chiclayo e Prefeito do Dicastério para os Bispos havia se tornado o quarto papa do século 21, sob o nome de Leão XIV, incluiu Rolândia em sua viagem ao Paraná em 2004 - passou também por Curitiba e Ponta Grossa - as coisas não seriam mais as mesmas.

As pernoites do norte-americano naturalizado peruano nos aposentos do seminário (desativado, hoje é apenas um alojamento dos freis), as refeições com os jovens estudantes, as conversas sobre a vida missionária no Peru (país no qual ele chegou em 1985 e deixou apenas em 2023, com rápidos intervalos nos EUA e na Itália) e as celebrações comandadas por ele no templo estavam definitivamente alçados ao universo fabular dos grandes acontecimentos.
Mas havia ainda uma outra ponte afetiva que uniria ainda mais o escolhido ao território circundado pela Avenida Girassol.
A notícia correu no mundo digital, no rádio e na TV: o titular da paróquia desde fevereiro de 2022, o frei Gilberto Oliveira, de 40 anos, conviveu com o papa em Lima, capital do Peru, e também em São Paulo, quando ele era prior da ordem agostiniana, espécie de líder máximo, que monitora a formação religiosa no âmbito da ordem.

“Estudei um ano numa comunidade em Lima e ele era bispo no norte do País. Ele ia com frequência fazer visitas e lecionar. E convivíamos nas horas vagas no seminário. Conversávamos sobre filmes, futebol, política e, claro, um pouco sobre a igreja também, sobre suas visitas às comunidades serranas e empobrecidas do norte do Peru, muitas vezes sem estradas e feitas a cavalo”, conta o sacerdote novato, que como Santo Agostinho, fez seus votos de disciplina religiosa depois dos 30 anos.
“Ele falava português, o que o aproximava do grupo de brasileiros que viviam lá”, lembra. O frei, um paranaense nascido em Piraí do Sul, nos Campos Gerais, puxa pela memória para descrevê-lo como “uma pessoa sóbria, sábia, bem humorada mas muito prudente nas brincadeiras, com a fala certa para o momento certo”.
O frei Gilberto adianta que pretende falar sobre sua convivência com o novo papa nas próximas homilias, semana que vem. Talvez de forma mais serena e pensada do que nas horas que se seguiram ao anúncio, ainda sob o impacto de um “espanto bom”, explicado assim: “Ele era o único cardeal da nossa ordem entre os elegíveis e não estava na lista de favoritos. Mas acredito que a função que ele exercia como prefeito do discatério dos bispos deve ter sido muito importante na sua ascensão durante o conclave. É um cargo que influencia a nomeação dos bispos então há um contato estreito com muitos que estavam lá”.

DIÁLOGO
“Será pontificado de diálogo e esta capacidade que os agostinianos têm de manter o equilíbrio pode ser muito útil na aproximação de um mundo polarizado, de dois extremos, o que deve ter ajudado em sua eleição. Como líder, ele sempre dialogou muito bem com outras religiões e também na abordou temas difícil em ambientes culturais diversos, incluindo a questão indígena no Peru, sempre dentro da espiritualidade agostiniana”, afirma o integrante de uma família numerosa formada por um casal de lavradores e que antes da batina chegou a ter uma carreira promissora na equipe de manutenção industrial de uma grande empresa na sua terra natal.
Frei Gilberto já teve que explicar para uma namorada que iria ter que romper o relacionamento para ser padre e já encarou a apreensão de ser ordenado em plena pandemia. Sabe bem o que é um desafio e como ter sangue frio para vencê-lo. Sobre as pressões que seu ex-professor em Lima vai enfrentar, ele arrisca algumas previsões. “Gosto muito da ideia de que a cada tempo a Igreja suscita a pessoa certa. Francisco foi necessário para seu tempo. Leão XIV vai salvaguardar a tradição da igreja, assim como fez seu antecessor. Também acho que ele vai ter uma opinião enfática sobre a questão dos abusos contra os imigrantes porque ele foi um imigrante. Vai continuar olhando para aquelas pessoas que mais precisam, minorias, isso é uma obrigação da igreja. Mas isso não significa que ele vai abdicar daquilo que a Igreja ensina. Como bom agostiniano, vai ser um conservador da doutrina. Este equilíbrio ele vai construir com muito diálogo”, pondera, acrescentando que neste esforço também estará colocar o peso das palavras de um papa a serviço da paralisação das guerras que entristecem o mundo neste fim de primeiro quarto do século 21.


