Um grupo de 12 homens encapuzados e armados com escopetas e metralhadoras expulsou ontem de manhã cerca de 150 sem-terra que estavam acampados na Fazenda Santa Emília, em Itaguajé (110 quilômetros ao norte de Maringá). Ninguém ficou ferido. Segundo versão dos sem-terra, que são ligados ao Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), uma dissidência do MST, os homens chegaram em dois veículos por volta das 7 horas. ‘‘Eles desceram atirando e colocando fogo nos barracos. Perdi tudo, até meus documentos’’, denunciou o sem-terra Fernando de Moraes Filgueira.
Os ‘‘pistoleiros’’, segundo Filgueira, chegaram junto com o ônibus escolar que busca as crianças do acampamento. Todos os sem-terra foram rendidos e colocados dentro do ônibus, que seguiu para Itaguajé. Pelos cálculos da polícia e dos coordenadores do acampamento, foram queimadas mais de 80 barracas, duas casas de madeira usadas pelos sem-terra e dois veículos, uma Brasília e um Dodge. ‘‘Mas os dois estavam em perfeito estado’’, avisou Francisco Pedro da Silva.
Silva contou à Folha que desde a invasão da fazenda, no dia 13 de outubro do ano passado, o proprietário não foi impedido de trabalhar na área. ‘‘Nós nunca mexemos nem em um fio de arame da cerca dele. Só esperávamos a terra porque tem documento que ela é improdutiva’’, afirmou.
O movimento prometeu doar cestas básicas e montar um novo acampamento, nas margens da rodovia PR-542, na entrada da fazenda, ou dentro da propriedade.
O pai dos donos da propriedade, Armando Guirelli, de Cafeara, disse à Folha que desconhecia quem poderia ter feito a retirada dos sem-terra. Ele e o neto dele, Alexandre, chegaram na fazenda por volta das 9 horas. A polícia ouviu os dois e apreendeu um revólver calibre 38 em posse de Alexandre.
À tarde quatro sem-terra que trabalham em uma lavoura de café a alguns quilômetros do acampamento estavam desolados no meio dos barracos queimados. ‘‘Não sei nem onde está minha família’’, repetia Paulo Galdino Bezerra. A mulher dele e os dois filhos menores foram retirados junto com os demais acampados e levados para a cidade. Ele conta que viu a fumaça e junto com os outros sem-terra foi até o acampamento. ‘‘Quando chegamos não tinha mais ninguém aqui. Deu desespero’’, revelou à Folha.
O único bem dele que ‘‘sobrou’’ sem queimar foi um botijão de gás e algumas enxadas. ‘‘Os jagunços queimaram até nossos documentos’’, lamentou.

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