Aos gritos de ‘‘mata tudo, mata tudo’’, três homens entraram na madrugada de ontem no bar Ponto de Encontro, na Rua Pedro Lessa, 125, centro de Francisco Morato, na Grande São Paulo, e executaram 11 pessoas - oito homens e três mulheres - na 46ª chacina deste ano na região metropolitana de São Paulo. Outras quatro pessoas também baleadas estão internadas. Uma delas contou para a polícia, na Santa Casa da cidade, que estavam cantando e bebendo cerveja e cachaça quando os três homens, encapuzados, entraram.
Os assassinos encostavam o cano das armas na cabeça das pessoas e atiravam. A suspeita de tráfico e de vingança são investigadas pela polícia da cidade e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa(DHPP). Foram disparados mais de 50 tiros de calibres diferentes. As vítimas receberam tiros na cabeça. A maioria morreu abraçada na tentativa de se proteger dos disparos.
‘‘Foi uma cena que jamais esquecerei em minha vida, uma coisa brutal, monstruosa, e não é possível que um ser humano possa ter agido daquela maneira’’, afirmou o delegado Eduardo Sales Pitta, que está investigando a chacina.
Ele adiantou que, dos mortos, poucos tinham antecedentes criminais. Alguns eram acusados de pequenos furtos e, outros, tinham passagem por drogas.
O bar não era local de venda de drogas. O dono, Renato de Assis Girão, de 30 anos, um dos mortos, foi investigado pelas polícias Civil e Militar e pelo Departamento de Investigações Sobre Entorpecentes (Denarc). O delegado Pitta explicou que esteve no bar diversas vezes em busca de drogas, mas não encontrou nada.
Os vizinhos do bar disseram ter ouvido estampidos e pensaram que eram fogos juninos. O Ponto de Encontro ficava aberto durante a madrugada e era parada obrigatória dos que perdiam o último trem ou ônibus. Para atrair fregueses, Girão sempre convidava garotas e não cobrava bebidas e aperitivos.
O bar fica a cerca de 450 metros da delegacia central de Francisco Morato. O delegado Pitta estava empenhado em controlar um início de rebelião dos presos e nada ouviu. ‘‘Se estivesse tudo calmo, quem sabe eu teria ouvido os tiros’’.
Além de Girão morreram Rubens Francisco da Silva, de 33 anos, Daniel Adaury do Nascimento, de 23, José Calmo dos Santos, de 34, Luiz Carlos Lopes da Silva, de 28, Sandro Aparecido da Silva Soares, de 23, Evelyn Aparecida Abrahão Zenan, de 17, João Donizeti Fernandes, de 36, Sílvio Marcos Lúcio de Barros, de 28, Rosana Nascimento do Amaral, de 21, e Célia Gonçalves, de 33. Estão internados, Ozeas Ascenção Aguiar, de 29, J.B.C., de 16, Sílvio Francisco da Silva, de 31, e Sandroval Marques, de 28 anos.
A polícia recolheu no chão do bar 10 cápsulas deflagradas de calibre 45, 14 cápsulas de calibre 380 e 13 cápsulas de automática 7,65. ‘‘Eles podem ter usado uma submetralhadora, mas acredito que foram armas automáticas’’, adiantou o delegado.
Célia Gonçalves, empregada doméstica diarista, estava separada dos demais mortos. Seu corpo foi encontrado com um tiro na cabeça, caído na entrada do banheiro. Os peritos do Instituto de Criminalística (IC) que examinaram os corpos no local acreditam que ela correu para fugir dos assassinos, sendo alcançada e executada.
Parentes dos mortos pediam à polícia explicação sobre as execuções. Muitos afirmaram que a situação de insegurança é em Francisco Morato. As chacinas eram rotina no município há alguns anos. Houve na ocasião a suspeita da participação de policiais militares. Este ano já aconteceram 46 chacinas, com 162 mortos, na região metropolitana de São Paulo.

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