Uma forma diferente de fumar está conquistando jovens e se tornando moda nas rodas de amigos, nos barzinhos e em reuniões familiares. Trata-se do narguile (pronuncia-se narguilé), conhecido também como arguile, um cachimbo d'água de origem árabe, usado para fumar tabaco aromatizado. Mas o que parece inofensivo pode esconder malefícios como os do cigarro. É o que alertam especialistas da área da saúde.
O narguile é uma peça, que pode variar de formato e tamanho, composta por base, corpo, fornilho, abafador e um tubo, também conhecido como mangueira. Na base é colocado água ou outro líquido, como suco de frutas, leite ou bebidas alcoólicas. No fornilho vai o tabaco, junto com uma pedra de carvão em brasa, que fica protegida pelo abafador, para não apagar. A brasa forma a fumaça, que é esfriada e ''filtrada'' pela água e aspirada através da mangueira. Na ponta da mangueira há uma piteira de plástico, que pode ser lavada ou descartada a cada uso.
Um dos diferenciais do narguile, é que ele não exala fumaça no ambiente, e não ''incomoda'' como o cigarro comum, que hoje tem uso proibido por lei em ambientes fechados. Além disso, o tabaco é ''disfarçado'', com dezenas de opções diferentes de aromas, como limão, laranja, menta, melancia, cereja, capuccino. E como no Oriente, onde o ''charme'' é compartilhar o narguile, o hábito no Brasil já virou sinônimo de reunir amigos. A grande polêmica é que tudo isso dá a ''impressão'' de que o narguile não é uma forma de tabagismo.
A cirurgiã-dentista Andréa Carraro de Oliveira Badin e a fisioterapeuta Ana Luiza Prado Souza, que coordenam em Londrina um grupo de tratamento para pessoas que querem parar de fumar, alertam que há pessoas acreditando que o produto é diferente do cigarro e que não faz mal.
''Como ficou mais acessível comprar o narguile, há pais que compram para os filhos fumarem em casa e acabam achando que é só essência, quando na verdade é tabaco. Há estudos que mostram que, no narguile, a quantidade de alcatrão é três vezes superior que no cigarro normal e a de nicotina duas vezes maior'', alerta Andréa. Levantamento, segundo as especialistas, como o de George Loffredo, professor da universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, feito com fumantes de narguile no Egito, aponta que eles estão mais expostos a substâncias tóxicas.
As próprias lojas onde se vende o produto ajudam a perpetuar a informação de que o narguile é diferente e não faz mal. Em uma dessas lojas, no Centro de Londrina, a vendedora, questionada pela reportagem da FOLHA, diz que o narguile não é usado para fumar tabaco, mas para fumar ''essência''. No entanto, a embalagem da ''essência'' é dúbia - não tem informações em português, apenas em inglês e árabe, mas consta que o produto tem 0,05% de nicotina.
Andréa faz uma pesquisa de mestrado sobre tabagismo, com um capítulo dedicado especialmente a outras formas de uso do tabaco, como o narguile, e alerta: ''Ainda não há números globais, mas pesquisas regionais mostram que ele pode ter efeitos mais prejudiciais que o cigarro comum, pela maneira como é usado'', diz. Ela lembra que o cigarro ''comum'' tem alcatrão, substância cancerígena, nicotina, que causa a dependência, e monóxico de carbono, que interfere na circulação sanguínea e favorece o aparecimento de doenças cardiovasculares.

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