Enade expõe diferenças entre alunos e professores
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Luís Fernando Wiltemburg<br> Reportagem Local 
A aplicação do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), na tarde de ontem, explicita a visão diferente sobre as obrigações que instituições de ensino e universitários têm. Enquanto os alunos lamentam a falta de um incentivo maior que a entrega do diploma para resolverem as questões, um professor ouvido pela FOLHA apontou ausência de dispositivos que obriguem um real comprometimento dos estudantes com a avaliação.
O Enade tem o objetivo de avaliar o conhecimento de graduandos de cursos de nível superior sobre o conteúdo programático, habilidades e competências. Por isso, a presença é obrigatória, mas o aluno não precisa solucionar as questões, bastando permanecer na sala. Quem não comparece ou deixa o local da prova antes de uma hora após o início da prova fica em situação irregular e é impedido de se graduar.
Porém, a prova de conhecimentos e um outro questionário, no qual o estudante avalia a qualidade e estrutura de sua instituição de ensino, são importantes para as notas dos cursos. Por isso, o bom resultado é bastante valorizado, principalmente entre as instituições privadas. Algumas oferecem cursos preparatórios e até trocam notas do semestre pela do Enade.
A aluna de psicologia do Instituto Pitágoras Camile de Moraes diz que teve uma matéria específica em seu curso para avaliar provas passadas do Enade, além de contar com uma plataforma online para auxiliar na preparação.
Ela, que concluiu a prova em cerca de uma hora, afirmou que o conteúdo cobrado foi bem coerente com o visto em sala de aula. "Baseado no que aprendemos e no que foi cobrado aqui, acredito que o Enade é um bom método para avaliar a qualidade do ensino", afirmou.
A percepção é diferente no caso da aluna de Secretariado Executivo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Lucimara Gomes Venâncio. Na avaliação dela, os temas desenvolvidos em sala de aula não estão em consonância com o que foi cobrado ontem. "A grade curricular bate com o Enade, mas na hora de executar, não é a mesma coisa", comparou, acrescentando que, devido a essa diferença, a prova não é eficaz para avaliar seu curso.
Os formandos em Economia da UEL Isadora oliveira, Denis Furtado e Paulo Rogério Rodrigues consideraram a prova cansativa, com vários textos longos, mas adequada com o que viram na faculdade. "Mas, no nosso curso, não tivemos incentivo para fazer a prova. Portanto, não acho que seja uma boa avaliação", afirmou Furtado.
Isadora cita o investimento das particulares para que seus alunos obtenham boas notas. "A gente sabe que nas privadas (os alunos) têm aula para o Enade, ganham nota. O Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) serve para entrar na universidade, mas o Enade não serve para nada."
Paulo Rodrigues sugeriu que, caso o exame para o ensino superior auxiliasse no acesso a um mestrado, os alunos teriam mais motivação para executar a prova.
O coordenador do curso de Logística da Unifil, Pedro Antônio Semprebom, considera o Enade uma excelente ferramenta para avaliar o ensino superior, e que melhorou com o decorrer dos anos. Mas ele criticou a falta de exigência para que o aluno realmente responda às questões.
Para Semprebom, o Enade precisa ser mais rígido com relação ao comportamento dos alunos. "Pode sair (da avaliação) só com a assinatura do nome, mas alguns não entendem que (o Enade) faz parte da formação dele e pode acabar prejudicando um trabalho sério de uma instituição, entregando a prova em branco", afirma.
Para ele, o comprometimento pode vir simplesmente inserindo a nota do Enade no diploma de graduação.
No Brasil, mais de 551 mil alunos de ensino superior eram esperados para o exame. A FOLHA não conseguiu contato com a assessoria de imprensa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela elaboração e aplicação do Enade, para saber quantos alunos de quantos cursos foram avaliados em Londrina, além do número de faltas.


