Empréstimos crescem menos do que o esperado
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sábado, 06 de novembro de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez 
São Paulo, 07 (AE) - A retomada das operações de crédito ainda foi bastante tímida no terceiro trimestre deste ano, como mostram os balanços divulgados pelos principais bancos brasileiros. Embora não mais do que uma dezena de instituições tenham divulgado os resultados, é possível traçar um diagnóstico do setor tomando como base os números relativos a grandes instituições como Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Banespa.
No caso dos dois maiores privados, a expansão da carteira de crédito no trimestre julho-setembro foi 2,3% e 4,6%, respectivamente no Bradesco e no Itaú, em comparação ao período de abril a junho. "Um crescimento modesto que ainda não reflete nenhum impacto das medidas adotadas pelo governo para estimular o crédito", afirmou Bruno Pereira, especialista de bancos do BBA Icatu. E mais: revela que os bancos estão mantendo uma estratégia conservadora de destinar os recursos liberados pelos compulsórios para os títulos públicos.
A expectativa é de que até o fim do ano o volume de crédito cresça um pouco mais. E não apenas porque tradicionalmente a demanda por crédito aumenta no segundo semestre, mas também porque as medidas de estímulo ao crédito de maior impacto foram tomadas em outubro, entre elas a queda de 6% para 1,5% na alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoas físicas. Outras medidas começaram a incidir no mês passado, como a redução do recolhimento compulsório sobre os depósitos à vista de 75% para 65%, que injetou cerca de R$ 3 bilhões na economia.
No acumulado dos últimos doze meses, a carteira de crédito do Bradesco cresceu 3,3% e a do Itaú 13%, em termos nominais, segundo informações do analista Bruno Pereira, do BBA Icatu. O Itaú tem motivos para ter um desempenho mais representativo. Desde 1997, a estratégia do banco tem sido a de concentrar seus recursos em ativos de maior liquidez (ou seja, facilmente transformáveis em dinheiro) e de menor risco de crédito como os títulos públicos federais.
Tal política assegurou ao banco bons lucros e elevada rentabilidade, com as altas taxas de juros. A carteira de crédito, entretanto, ficou um pouco para atrás. Hoje ela corresponde a menos de 30% do total de ativo do banco, enquanto a do Bradesco equivale a mais de 34%. O Itaú tem terreno para recuperar.
Caminho inverso - O desempenho da carteira de crédito do Banespa seguiu trajetória oposta, registrando queda de 4,37% no fim do terceiro trimestre em relação ao resultado do primeiro semestre. Mas o banco já manifestou intenção de ampliá-la para compensar a perda de receita com os títulos públicos, focando principalmente nos créditos agrícolas.
Do ponto de vista social, a estratégia é bem-vista pelo mercado. O analista Pedro Guimarães, do Bozano, Simonsen, ressalta, no entanto, que esse tipo de crédito tem baixa rentabilidade. "O rendimento bruto de 8,5% ao ano é inferior ao custo de oportunidade de um banco, atualmente em 19% ao ano, que corresponde à taxa Selic", disse.
O Banespa tem sido o banco mais afetado com a queda acentuada das taxas de juros da economia. Isso porque tem uma vasta carteira de títulos federais herdada da época da renegociação da dívida do Estado de São Paulo com a União e a queda dos juros reduziu a receita com essa carteira em cerca de 30% do segundo para o terceiro trimestre, segundo informou Pereira do BBA. Segundo o analista, a grande vantagem do banco é que ele já ajustou a estrutura de custo, que vem se mantendo estável no decorrer do tempo.
Ainda em relação ao crédito, o segmento mais explorado pelos bancos privados, tem sido as operações de crédito diretor ao consumidor (CDC), cartão de crédito, e, no caso do Bradesco, se verifica uma retomada mais expressiva das operações de antecipações de contratos de câmbio (ACC). Essa, aliás, é uma área em que o banco é bastante ativo.
Lucro assegurado - O bom resultado dos bancos no terceiro trimestre e no acumulado do ano se deve basicamente à alta do dólar. Embora a alta tenha sido inferior à valorização registrada no primeiro trimestre do ano, ela não foi nada desprezível.
A moeda americana começou julho sendo cotada a R$ 1,77 e terminou setembro a R$ 1,938, uma alta de 9,49%. Com isso, as instituições patrimônio no exterior tiveram um bom ganho contábil. Os bancos com volumes expressivos de operações indexadas dólar também se beneficiaram.
"O setor bancário brasileiro nunca auferiu lucros tão elevados em toda a sua história; o resultado é recorde", disse o consultor Erivelto Rodrigues, da Austin Asis. O Banco do Brasil, por exemplo, registrou somente em setembro um lucro de R$ 502 milhões, somando R$ 733,4 milhões no trimestre julho-setembro.
O Itaú obteve um ganho de R$ 226 milhões com a alta do dólar nesse período, ante os R$ 535 milhões do primeiro trimestre. O lucro líquido foi de R$ 437 milhões no período julho a setembro. No Banespa, o ganho com a desvalorização cambial sobre investimentos no exterior foi de R$ 42,2 milhões. Mas o grosso do lucro do banco veio mesmo da reversão de provisão que somou R$ 133 milhões apenas em setembro, quase o lucro apurado no trimestre de R$ 167,9 bilhões.
No caso do BB, o impacto da desvalorização cambial foi maior porque o banco reconheceu em balanço a cotação real do câmbio, o que não era feito até então para evitar frequentes reversões nos balanços. Instituições como o Unibanco, cujos balanços trimestrais ainda não foram apresentados, também deverão ter bons resultados, por causa da alta do dólar.


