A última bomba moral que explodiu mostrou as peripécias do traficante de drogas Leonardo Dias Mendonça, o Leo, apontado pela Polícia Federal como artífice da principal quadrilha que comercializa a cocaína no País. De novo, as evidências de que o poder do narcotráfico se estende por toda parte, inclusive com ramificação em tribunais superiores, onde habeas-corpus estariam sendo comercializados. Sem falar nos políticos de sempre e a corrupção alastrada por toda parte. Não é a toa que aproveitando o fim de feira do atual governo federal, o ministro da Justiça Paulo de Tarso Ribeiro, mandato tampão para cobrir a vergonhosa saída de Miguel Reale Junior, inconformado com a não decretação de intervenção federal no Espírito Santo, foi a um seminário sobre crime organizado, da Câmara Federal, e disse: ''O sistema nacional de oferta da justiça para a população brasileira está em colapso''. Tudo isso está cansando tanto que o defensor dos policiais militares acusados de matar o sequestrador do ônibus 174, quando uma professora tomada como refém foi morta, disse após a absolvição pelo júri, no Rio de Janeiro : ''Criminoso tem de morrer. Eu mato, sim. Se estuprar uma filha minha, vai morrer. O resto é hipocrisia''.
É o caminho da barbárie, só que pavimentado em vários níveis: corrupção, domínio do crime organizado, população perplexa diante de uma sucessão sem fim de absurdos e explicações sempre insuficientes para um quadro aterrador. Em janeiro, vida nova nas administrações atuais e quem sabe? aceno com perspectivas de mudanças. O ministro da Justiça prestes a se despedir arremata: ''O Brasil de hoje não consegue cumprir de forma eficaz as políticas de repressão ao crime''. Constatação ou confissão? Vou tentar responder essa questão hoje à noite no programa ''Passando a Limpo'', de Boris Casoy. Uma das receitas foi dada indiretamente quando o presidente eleito Lula encontrou-se com o presidente Bush, em Washington, e afirmou que não podemos mais ser ''prisioneiros de confrontos ideológicos estéreis''.
Toca ''estéril'' nisso. O circo pegando fogo e a galera falando abobrinhas. Teses enfiadas no vácuo enquanto a realidade sufoca. Descompasso entre o que acontece nas ruas e as leis. População com sede e pressa de justiça num deserto de idéias, medidas adequadas corretas e reações concretas aos desafios. Aliás, se emplacar mesmo como ministro da Justiça do governo Lula, Marcio Thomaz Bastos 45 anos de advocacia pensa em dar uma guinada nessas questões das quais todos sabem e poucos falam.
Em resumo: o ministro que sai abriu a boca sobre o que poderia ter ajudado a consertar. Os jurados do Rio de Janeiro disseram que Estado Democrático de Direito e Estado da Bandidagem Dominante são coisas diferentes. Lula, quem diria, não quer mais saber de ideologias e partidarismos anulando a razão.
O crime tem escritórios, roupagem empresarial, apodrece e contamina. Erasmo de Roterdam, em seu ''Elogio da loucura'', escreveu: ''Não se deve duvidar jamais de que os vícios e os crimes dos súditos são infinitamente menos contagiosos do que os do senhor''. Por que será?

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