São Paulo, 11 (AE) - A mudança na política cambial está levando algumas construtoras a reverem seus gastos com a compra de produtos importados. A Racional Engenharia já estuda reduzir as importações de materiais em cerca de 10%. Antes da desvalorização do real, os materiais adquiridos no exterior representavam cerca de 25% do total do itens utilizados em suas obras. A empresa compra elevadores, do Japão, sistemas de ar-condicionado e geradores de emergência, dos Estados Unidos, cerâmicas, da Itália e Espanha, além de pisos vinílicos e forros de fibra mineral importados. "Num primeiro momento, esses produtos se tornarão muito pouco competitivos com os similares nacionais, o que deve fortalecer a indústria local", disse o sócio-gerente da Racional, Marcos Santoro.
Segundo ele, alguns desses produtos importados estão sem preços no mercado e, portanto, não estão sendo negociados. Santoro disse que alguns produtos, no entanto, não podem ser substituídos pelos nacionais, caso de grandes máquinas como geradores de energia e chillers (resfriadores líquidos usados em sistemas de ar condicionado). Já, os materiais de acabamento, explica ele, têm ofertas da indústria doméstica em mais de 95% dos itens.
A Método Engenharia SA também sinaliza uma retração de consumo de materiais importados, especialmente para contruções comerciais, onde o custo dos itens importados chega a 20% do total da obra. A empresa, que importa vidros especiais, elevadores, ar condicionado, forros, pisos, mármores, dry wall e sistema de automação para prédios inteligentes, entre outros produtos, está sentindo dificuldade para negociar a compra de novos itens. "As empresas fornecedoras não sabem qual taxa de câmbio aplicar e nós, os consumidores, ficamos inseguros em fechar negócio agora, num momento em que o dólar está supostamente sobrevalorizado", explicou Hugo Marques da Rosa, diretor superintendente da Método. "Isso está causando a paralisação dos negócios." Ele acredita, porém, que a pressão de preços virá tantos dos produtos nacionais quanto dos importados. Nos prédios residenciais, disse Marques da Rosa, onde os materiais usados nas obras são 100% nacionais, a pressão vem dos itens fabricados com insumos importados, caso das tintas e cerâmicas, e dos produtos de exportação (aço), que reajustaram seus preços entre 13% e 20% este mês. Segundo o diretor superintendente da Método, alguns produtos importados podem ser substituídos por nacionais, caso dos mármores, vidros, que podem provocar, no máximo, um prejuízo estético. Outros, porém, explica Marques da Rosa, não têm similares nacionais. Ele cita o exemplo de itens de automação, como softwares, sensores, ar-condicionado, ou seja, produtos que compõem sistemas integrados, aplicados na construção de prédios inteligentes. "Estamos conseguindo que alguns dos nossos fornecedores mantenham os preços, mas para negócios novos os fornecedores já estão repassando os custos", disse Marques da Rosa.
As empresas importadoras de materiais de construção também já estão sentindo os efeitos da desvalorização cambial com a redução das encomendas por parte das construtoras. A Hunter Douglas do Brasil, que fabrica forros metálicos e importa o produto, na versão fabricada com fibra mineral, já calculou uma queda de 40% no número de pedidos desde a mudança na política cambial. A empresa é distribuidora da marca Armstrong, de origem norte-americana, que já enviou a nova lista de preços com aumentos de cerca de 30% neste mês.
Segundo o gerente comercial da Hunter, Marcelo Pezzin, a empresa repassou até 20% deste custo aos clientes, de acordo com o tipo do produto, na expectativa de que o câmbio se estabilize entre R$ 1,65 e R$ 1,70. Mas não foram só os produtos importados que tiveram seus preços reajustados. Os forros metálicos, produzidos aqui a partir de aço e alumínio também tiveram aumentos entre 5% e 15%, dependendo do modelo, informou Pezzi, justificando a alta em decorrência do reajuste de preços dessas matérias-primas.
O gerente comercial da Hunter prevê que essa retração de 40% deva se manter ainda neste mês. Segundo Pezzin, o forro de fibra mineral é mais barato do que a versão metálica, mas com a mudança cambial diminuiu essa diferença de preço diminuiu, embora o material importado ainda esteja mais barato. "Estamos esperando uma migração para os produtos mais baratos num primeiro momento, o que poderá favorecer a venda de alguns itens nacionais", disse Pezzin.
Apesar das dificuldades decorrentes da instabilidade econômica do País, o sócio-gerente da Racional está otimistas em relação ao mercado de construção. "Estão surgindo consultas, principalmente de clientes estrangeiros, que têm poder de aquisição maior, principalmente após a desvalorização da nossa moeda", disse Santoro. Atualmente, a Racional tem mais de 16 obras em andamento pelo País, voltados para o segmento industrial e comercial.
O diretor superintendente da Método, entretanto, está preocupado. "A repercussão das mudanças econômicas no País ainda não causaram problemas mais sérios, mas se em algumas semanas a instabilidade persistir poderá afetar significativamente a produção de obras", avalia Marques da Rosa.

mockup