São Paulo, 30 (AE) - O Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (Transurb) divulga amanhã uma carta aberta à população em que acusa a Prefeitura de omissão no caso da fiscalização de perueiros e pede, como "um sinal de boa vontade", à Secretaria de Segurança Pública que ajude os fiscais municipais no combate ao transporte irregular.
A nota classifica o incêndio criminoso de 11 ônibus feito por perueiros, nas duas últimas semana, na capital, como uma "ação terrorista organizada por um grupo extremamente violento, que nasceu e cresceu às margens da omissão do poder público em cumprir seu dever de fiscalizar, apreender e, se for o caso, prender." A fiscalização e apreensão de veículos cabem à Prefeitura. Prisões, somente à polícia.
O Transurb criticou a troca de acusações e transferência de responsabilidade entre Prefeitura e Estado ocorridos na última semana. "A população, que paga impostos, exige que os homens públicos deixem de lado a vaidade e discussões estéreis e priorizem o bem-estar do cidadão." O sindicato das empresas adverte que, em alguns casos de incêndio de ônibus, os vândalos "nem sequer aguardaram o desembarque dos passageiros."
Justiça - O secretário municipal dos Transportes, Getúlio Hanashiro, interpretou amanhã que, quando o Transurb refere-se a "poder público", não está falando dele nem do prefeito Celso Pitta. "De fato há ações do poder público muito demoradas, mas não no caso da Prefeitura de São Paulo", disse. Ele acredita que a solução para a guerra com os perueiros é a intervenção da Polícia Militar para garantir a integridade física dos fiscais.
Como o governo do Estado já informou que não deslocará policiais para as ações, Hanashiro decidiu recorrer à Justiça. Ainda nesta semana, a Prefeitura buscará uma ordem judicial que obrigue o Estado a deslocar a PM para combater as peruas.
"A ação dos perueiros extrapolou o mero ilícito administrativo para cair, claramente, na criminalidade, marginalidade", disse o secretário. "Virou caso de polícia." Hanashiro cita como exemplo o caso de Campinas, onde a PM passou a fazer a segurança dos fiscais depois de uma determinação judicial decorrente de um pedido do Ministério Público.
Segundo o secretário, diariamente são registrados boletins de ocorrência, em distritos policiais da capital, sobre agressões contra fiscais da Prefeitura e da São Paulo Transportes (SPTrans). "Temo pela integridade física deles."
Culpa - Para Hanashiro, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) não pode agir nesses casos por não ser suficientemente preparada. "A guarda foi criada para cuidar de patrimônio público, não da integridade dos funcionários."
Ao comentar a carta aberta do Transurb, Hanashiro também afirmou que a culpa pelo aumento do número de lotações clandestinas na cidade é "de toda a sociedade e da imprensa." "Ambos foram tolerantes a esse tipo de transporte, como ainda são tolerantes com os camelôs e as rádios-piratas."
Questionado se haveria algum impedimento para a Prefeitura atuar, Hanashiro respondeu que já vem agindo. "A Prefeitura reprime de maneira permanente, já apreendemos mais de duas mil peruas clandestinas."
Morte - A Assessoria de Imprensa da PM informou hoje que seis policiais envolvidos na morte do perueiro Anderson de Araújo Rodrigues, o Carioca, de 30 anos, continuavam recolhidos em um quartel. Os policiais prestaram depoimento à Corregedoria da Polícia Militar na tarde de sábado.
Às 8h45 de sexta-feira, ao tentar escapar de um bloqueio montado pela prefeitura de Guarulhos na Praça 8 de Dezembro, Carioca acelerou a perua. Foi perseguido por 15 minutos, até ser interceptado por veículos da Polícia Militar, da Guarda Civil de Guarulhos e da fiscalização da Secretaria dos Serviços Públicos, na Avenida João Jamil Jariff.
Dois PMs que participavam da perseguição dispararam seis tiros no carro de Carioca, que não levava passageiros, atingindo-o na cabeça. Internado às pressas no Hospital Municipal de Urgências, ele foi transferido para o Hospital Padre Bento, onde morreu, às 16h10.
Greve - Não haverá greve de ônibus amanhã. A diretoria do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte de São Paulo decidiu, na sexta-feira, suspender a greve de 24 horas prevista para exigir mais segurança e protestar contra o governador Mário Covas e o prefeito Celso Pitta, por causa da falta de ação contra os perueiros.