As empresas estão criando ‘‘universidades’’ corporativas, instituições cujo objetivo é aumentar os conhecimentos de funcionários, clientes e fornecedores de modo a atender as necessidades do mercado em um prazo curto. O motivo seriam as deficiências do ensino superior. Essas instituições, apesar de recentes no Brasil, já estão competindo com as universidades de ensino tradicionais. Esta é uma das constatações da pesquisadora Cristiane Alperstedt, em uma tese defendida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), onde ela estudou essas instituições no Brasil e nos Estados Unidos.
‘‘As empresas optam por essa saída porque, com certeza, as instituições não estão formando os profissionais de forma adequada às necessidades do mercado de trabalho. Os cursos existentes não são satisfatórios, há um descompasso entre a academia e o mercado de trabalho, tanto aqui quanto nos Estados Unidos’’, disse em sua tese de doutorado ‘‘As universidades corporativas no contexto do ensino superior’’. Cristiane também é coordenadora dos cursos de Administração da Faculdade Belas Artes de São Paulo. Segundo ela, atualmente há cerca de 200 universidades corporativas no País.
O que chamou a atenção da pesquisadora foi o fato de as empresas não buscarem as instituições de ensino já existentes para ampliar o conhecimento de seus funcionários, preferindo investir nos próprios cursos, em um investimento caro. A universidade corporativa é sempre voltada para a área de negócios, uma vez que nem sempre a pesquisa está atrelada às necessidades do mercado.
No Brasil, a lei não permite que essas universidades emitam diplomas de nível superior. Mesmo assim, as instituições tradicionais e as corporativas se encontram em um momento de competição em relação ao setor de pós-graduação lato sensu, que corresponde à especialização. ‘‘Eu acredito que essa é uma bela oportunidade de as instituições tradicionais fazerem parcerias com as universidades corporativas’’, disse Cristiane.
Segundo a pesquisadora, as instituições têm o conhecimento, a infra-estrutura e são credenciadas para emitir os diplomas, o que interessa às empresas. Em contrapartida, elas poderão formar pessoas mais preparadas para atender o mercado de trabalho e ainda conseguir uma verba extra, além de melhorar a qualidade de seu ensino. ‘‘A parceria é uma maneira de se inibir o crescimento independente dessas universidades corporativas’’, destacou.
Cristiane diz que as corporativas não vão desbancar as tradicionais, mas poderão ultrapassá-las, pelo menos na área de lato sensu, o que resultará em perda de renda principalmente para as instituições de ensino tradicionais particulares.
Há áreas que não são atendidas pelas universidades tradicionais, segundo a pesquisadora, como o setor de crédito. Não tendo cursos específicos para isso, o grupo Visa criou o Visa Training, que atende pessoas encarregadas de gerenciar sua bandeira nos bancos. Ela citou também o caso da Boston School, do Bank Boston, que foi procurada pela General Motors para atender seus funcionários na área financeira. ‘‘Note que a GM procurou uma universidade corporativa e não uma instituição tradicional’’, ressaltou.
Já a empresa Datasul, de software, que fica em Santa Catarina, recebeu uma proposta da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e ambas montaram, em parceria, um curso sequencial voltado para o setor. Em sua pesquisa, Cristiane procurou empresas que tinham universidades corporativas que estão se abrindo para atender pessoas que não sejam necessariamente ligadas à empresa, pois é nessa situação que a concorrência entre as instituições tradicionais e as corporativas aparece. ‘‘Na verdade, as empresas perceberam que essa área de ensino dá dinheiro’’, afirmou.
A Arthur D. Little, uma das maiores empresas de consultoria dos EUA, percebeu que, depois de prestada a consultoria, seus clientes muitas vezes não conseguiam tomar as medidas indicadas pelos consultores por falta de conhecimento. Em 1964, montaram uma estrutura para dar cursos e treinar os funcionários das empresas que eram clientes. Atualmente, a universidade corporativa do grupo se desvinculou da consultoria, prestando serviço com foco na formação internacional, sendo auto-suficiente e lucrativa.
O Bank Boston criou em 1999 o Boston School e sua universidade corporativa tem várias modalidades. No auto-estudo, as pessoas fazem as atividades de maneira isolada. No conhecimento compartilhado, grupos são montados de acordo com interesses comuns, e se for necessário, é contratado um orientador. Em sala de aula, há dois tipos: um de formação bancária geral, que explica o que todos, do boy ao presidente, devem saber sobre um banco, e o funcional, que depende da função exercida pela pessoa.
A maior parte dos cursos é pago pela empresa. Alguns são abertos para familiares, esposas e filhos, segundo Denise Asnis, diretora-adjunta de Recursos Humanos e responsável pelo Boston School. A Motorola University já faz parcerias com universidades tradicionais, como a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela conta com um campus em Jaguariúna, interior de São Paulo. Criada há quatro anos no Brasil, fez 300 cursos, adaptados para a realidade brasileira. ‘‘Não temos cursos de longa duração, todos são voltados para aperfeiçoamento de desenvolvimento e há cursos aplicáveis para todas as áreas de negócio’’, resumiu Clóvis Cocenzo, diretor da Motorola University para o Brasil.
Algumas universidades corporativas no Brasil: Motorola University, Visa Training, Universidade Datasul, Boston School, Universidade do Hamburguer (McDonald’s), Escola Amil, Universidade Brahma, Academia Universidade de Serviços (grupo Accord) e Universidade Telemar.

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