Empresas brasileiras investem para se adaptar ao e-commerce
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terça-feira, 04 de abril de 2000
Por Paula Puliti 
São Paulo, 05 (AE) - As grandes e médias empresas brasileiras estão investindo, em média, 4% do faturamento líquido anual em Tecnologia da Informação (IT), preparando-se para se beneficiar da projetada explosão do comércio eletrônico no Brasil e no Exterior. Segundo a consultoria BCG, as vendas online na América Latina totalizarão US$ 3,8 bilhões no fim de 2003. Para os Estados Unidos, a projeção é de US$ 2,8 trilhões. "A procura por informações sobre e-commerce está muito acelerada no País", afirma o presidente da Andersen Consulting no Brasil, Mario Fleck.
Apesar de a forte queda do índice Nasdaq, que concentra as ações das empresas de tecnologia, estar assustando investidores em bolsas de valores, analistas acreditam que as estimativas sobre o potencial do comércio eletrônico no País e no Exterior não serão afetadas. "Não há relação entre a bolha acionária, que supervalorizou as empresas de tecnologia com base numa expectativa de lucro futura", disse o consultor Gilberto Dib. Para ele, o fundamento do comércio eletrônico é real, baseado na mercadoria, na oferta, na comodidade de fazer compras sem sair de casa e na própria demanda por esse tipo de serviço.
Entre os especialistas, ainda é corrente a afirmação de que o e-commerce se consolidará como estratégia empresarial neste ano, registrando um avanço em relação a 1999, ano do lançamento dessa tendência no País. Dados de uma grande consultoria do segmento mostram que o empresário brasileiro não quer ficar atrás dos concorrentes ao Norte. Há um ano, por exemplo, a consultoria era procurada por uma média de três empresas por semana em busca de orientação. Hoje são cerca de 20 por dia, sobretudo para os setores industrial e financeiro. Embora muitos empresários reconheçam que estão atrasados na integração com a rede, praticamente 90% já estão avaliando e têm opinião favorável à adoção do comércio eletrônico.
Para Norm Francis, presidente da canadense Pivotal, parceira da Microsoft na América Latina para softwares de e-commerce, o comércio eletrônico vai não só expandir a venda das empresas brasileiras no Exterior, mas também impulsionar a criação de multinacionais brasileiras. O aspecto mais interessante do comércio eletrônico, diz o executivo, é que ele permite ao empresário alcançar clientes antes inacessíveis, o que poderá, no futuro, ter impacto na pauta e no volume de exportações do País. Não se trata apenas de teoria, como mostra uma tradicional empresa brasileira. Preparando-se para ampliar as vendas pela Internet, essa companhia já tem planos avançados para a instalação de grandes depósitos e escritórios em outros países, uma forma de vencer as limitações de transportes e armazenagem (logística), segundo afirmou um de seus executivos.
Situada entre as early adopters (empresas que adotam os novos processos) do País, a siderúrgica Belgo Mineira também pensa em aumentar as exportações on line. A empresa lança, no fim de abril, uma nova home page, totalmente voltada para o comércio eletrônico, tanto para a compra quanto para a venda de produtos. Inicialmente, a intenção da Belgo Mineira é aumentar os serviços ao cliente e ampliar a cobertura de vendas no Brasil. Mas para o futuro próximo, a estratégia é atender a pedidos no Exterior, segundo Roberto Milhomem Martins, gerente de vendas da empresa.
Com o crescimento das transações eletrônicas, os sérios problemas de logística, que hoje dificultam a entrega de encomendas fora (e dentro) do País, deverão motivar diversas empresas a se instalar no Exterior, segundo Francis, da Pivotal. "A logística é um grande complicador para o comércio eletrônico
mas as empresas aéreas, as de entrega expressa e até mesmo as do setor ferroviário, já perceberam a oportunidade de crescimento e estão se preparando para atender a esse novo mercado", diz Fleck, da Andersen.
Segundo ele, muitas das empresas que utilizam o comércio eletrônico estão fazendo parcerias com companhias de distribuição de forma a garantir a entrega dos produtos, sobretudo no varejo.
No Brasil, a multinacional sueco-suíça ABB (Asea Brown Boveri) também está dando o exemplo de como utilizar a Internet para conquistar clientes. A empresa criou uma subestação de energia padronizada, que atende às necessidades de clientes dentro e fora do País. Quando visitam os potencias clientes, os vendedores acessam o projeto em 3D da substação pela Internet, verificam as especificações do produto e podem até dar um orçamento ao cliente em poucas horas. "Tanto para nós quanto para o cliente, a economia de tempo chega a 30%", diz Sérgio Bittencourt, gerente de vendas de sistemas de distribuição da ABB-Guarulhos.
Segundo pesquisa recém-divulgada pela FGV, 94% das médias e grandes empresas brasileiras já têm homepage. Mas o movimento de valores no mercado de transações entre empresas é de apenas 0,17% do total vendido. No segmento de negócios ao consumidor, as transações feitas por comércio eletrônico ainda correspondem a 0,05% do total. "Esses números mostram que ainda há todo um mercado a ser explorado", disse Alberto Luiz Albertin, coordenador da pesquisa FGV, "Comércio Eletrônico no Mercado Brasileiro". No fim do ano, serão 12 milhões de computadores em uso no País.
Além da facilidade de comprar sem sair de casa ou do escritório, uma das grandes vantagens do comércio eletrônico é a possibilidade de reduzir os altos níveis de corrupção no País. Essa é a opinião de Mario Fleck, presidente da Andersen Consulting no Brasil. Ele explica que, como todas as transações feitas eletronicamente ficam registradas no computador, é mais complicado superfaturar um produto, por exemplo. O comércio eletrônico também reduz os números de intermediários nas operações, reduzindo o preço final dos produtos.


