Buenos Aires, 06 (AE) - Um grupo de empresários brasileiros encontra-se amanhã cedo com o presidente Fernando Henrique Cardoso para relembrar a necessidade de fortalecer o Mercosul às vésperas da reunião de cúpula com os países da União Européia, marcada para o final deste mês, no Rio de Janeiro. Eles gostariam de ver transmitida a imagem de que o agravamento das disputas comerciais entre Brasil e Argentina, surgido nas primeiras semanas após a desvalorização do real, está superado. As incertezas quanto à coesão do Mercosul se agravaram ainda mais com a perspectiva de dolarização na Argentina, e o que os empresários querem é reforçar uma imagem de coesão entre os dois países.
"O Mercosul é extremamente importante para o País e precisamos estar fortalecidos para poder negociar com a União Européia", disse o presidente do Comitê Empresarial para América Latina, Roberto Teixeira da Costa. "Não podemos deixar que fatores conjunturais prejudiquem uma relação tão importante." Costa explicou que os empresários acharam importante levar ao presidente sua preocupação quanto ao fortalecimento do Mercosul antes do encontro com Menem. "Queremos saber se podemos fazer algo para ajudar e mostrar nosso apoio", disse ele.
Na opinião do empresário, a dolarização na economia argentina "não seria boa" para o Mercosul. "Mas não sei se esse assunto deve ser tratado explicitamente ou nas entrelinhas, na conversa dos dois presidentes", observou. Ele explicou que, com a dolarização, as dificuldades para o Mercosul aumentam, pois para a Argentina passaria a ser mais lógico integrar sua economia com a Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca). "Ela ficaria em situação de preferir a Alca, porque as operações serão todas em dólar."
Cúpula - O presidente também discutirá, pela manhã, os preparativos para a reunião entre União Européia e Mercosul, que ocorrerá no final deste mês no Rio de Janeiro. Ele se encontrará com os representantes do Brasil, Roberto Teixeira da Costa, e Argentina, Carlos Bulgherone, no Conselho Empresarial Mercosul-Europa. "Gostaríamos de ouvir se ele acha que está reservado um papel para o setor privado na cimeira", disse Costa. "Também vamos atualizar o presidente sobre as providências adotadas desde fevereiro."
As conversações em torno da união aduaneira entre Mercosul e União Européia sofrem séria ameaça de ficar esvaziadas na reunião de cúpula, diante da decisão da França de vetar uma autorização conjunta dos governos europeus para iniciar as negociações. O veto, porém, ainda tem chances de ser revertido numa reunião marcada para o dia 21.
A desvalorização do real provocou na Argentina o temor de uma "invasão" de produtos brasileiros. A reação dos argentinos, segundo autoridades brasileiras, foi de "verdadeiro pânico". Por isso, várias pendências nas relações comerciais entre os dois países foram agravadas, pois exportações brasileiras de aço e açúcar passaram a ser sobretaxadas ao ingressar na Argentina. A imposição de direitos antidumping contra o aço laminado a quente foi classificada pelo governo brasileiro como "um má coisa" dentro do processo de união aduaneira.
Os dados dos primeiros quatro meses do ano, porém, mostram que a temida invasão praticamente não ocorreu. As importações brasileiras de produtos argentinos caiu 32,3%, comparando com igual período do ano passado, enquanto as exportações caíram 27,3%, segundo dados da Associação de Empresas Brasileiras no Mercosul (Adebim). Ou seja, o fluxo comercial entre os dois países caiu, mas de forma mais ou menos equilibrada. As estimativas são de que o comércio bilateral sofrerá uma retração da ordem de 20% a 25% este ano. "Nos dois lados, o problema não é o câmbio, mas a recessão", comentou Roberto Teixeira da Costa.

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