Seattle, 05 (AE) - Para os empresários do setor agropecuário brasileiro que acompanharam a reunião da OMC, o acordo que se buscou em Seattle na semana passada poderia ter sido um avanço, mas não justificaria nenhuma comemoração. "Para quem chegou aqui com uma visão realista sobre o que poderia ser negociado, o fato de se ter chegado a um texto prevendo a eliminação dos subsídios às exportações foi simbolicamente importante no momento em que ocorreu, mas apenas porque poderia ter impedido um retrocesso e garantido o mínimo para um começo na liberalização do comércio agrícola", disse Pedro de Camargo Neto, presidente do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo.
Mas mesmo esse resultado, que chegou a ser alinhavado num entendimento em princípio negociado entre a União Européia, os Estados Unidos e os grandes produtores agrícolas do Grupo de Cairns, ficaria "aquém do necessário para garantir uma efetiva abertura" da agricultura, afirmou Roberto Rodrigues, presidente da Aliança Cooperativa Internacional. "Precisávamos de mais clareza sobre o compromisso de eliminação dos subsídios às exportações agrícolas, porque eles são simplesmente indefensáveis."
Quando Rodrigues e Camargo deixaram Seattle, as conversas sobre agricultura estavam novamente num impasse, por causa da insistência de países europeus, especialmente da França e da Noruega, mas também do Japão e da Coréia, de defender a preservação de formas de subsídios e manter o conceito da "multiplicidade" da agricultura, para permitir a manutenção de formas de proteção a seus produtores por razões não comerciais, tais como o bem estar dos animais e valores como a função social da pequena propriedade agrícola.
A inclusão da agricultura no processo de liberalização do comércio e a equiparação dos produtos agrícolas a outros bens frente às regras do comércio internacional foi a principal reivindicação do Brasil na reunião ministerial da OMC. "Sem essas questões resolvidas, não há sentido fazer uma rodada", disse o ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Morais.
Para Rodrigues, mesmo sem acordo, a visibilidade que o tema da agricultura ganhou no encontro de Seattle foi um benefício importante para o entendimento do setor numa luz positiva, no Brasil. Operando na suposição de que em algum momento a OMC lançará uma nova rodada de liberalização, prevendo uma redução gradual dos subsídios, com vistas à sua eliminação, Rodrigues apresentou a Pratini de Morais, um plano do setor para formar um "comitê do milênio" para apoiar os negociadores brasileiros. "A idéia é ter um comitê permanente com representantes do governo, do mundo acadêmico e do setor privado, incluindo associações empresariais e os sindicatos do setor, para municiar os negociadores do Brasil para que eles possam melhor defender os interesses da agricultura brasileira durante a rodada", disse ele.

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